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Com ou sem Havaianas, o que aconteceu com o espírito natalino?

Quando a gente começava a achar que a polarização política no Brasil estava, finalmente, dando sinais de cansaço, veio o comercial das Havaianas para nos lembrar de que não: seguimos bastante divididos. Bastou uma peça publicitária para reacender discussões acaloradas, acusações mútuas e aquele clima pesado que, infelizmente, já conhecemos bem.

E não sejamos ingênuos: essa divisão política não fica restrita às redes sociais ou aos comentários de notícias. Ela transborda e afeta todos os outros aspectos da nossa vida. Desde 2018, muita gente passou a se afastar de familiares, a conviver com tensões no ambiente de trabalho ou a ver amizades antigas se tornarem relações difíceis, cheias de cuidado excessivo, silêncios constrangedores ou rupturas definitivas.

É como se a política tivesse ocupado um espaço desmedido, colonizando afetos, conversas triviais e até datas que antes eram dedicadas ao encontro, à celebração e ao descanso. Discordar virou, para muitos, sinônimo de inimizar. Pensar diferente passou a ser tratado como falha moral, não como parte natural de uma sociedade plural.

Por isso, aos cristãos sinceros, e falo aqui com todo respeito, gostaria de lembrar que hoje é 25 de dezembro. Dia de pedir perdão e também de perdoar. Dia de reconhecer os exageros cometidos, as palavras ditas além da conta, as atitudes que feriram mais do que convenceram. Dia de se comprometer, de forma concreta, a ser mais compreensivo e menos beligerante.

O país melhor que queremos construir não virá apenas de eleições, slogans ou campanhas publicitárias. Ele também passa, necessariamente, pela capacidade de escutar, de conviver com o diferente e de reconstruir pontes que foram queimadas ao longo desses anos. Talvez o verdadeiro espírito do Natal esteja justamente aí: na escolha consciente de baixar as armas, ainda que simbólicas, e lembrar que, antes de qualquer rótulo político, seguimos sendo pessoas que precisam umas das outras.

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