Notibras

Começou na infância, quando fui iniciado na nobre arte da cafifaria

Sempre tive fascínio por mãos habilidosas, talvez por as minhas serem a negação disso.

Começou na infância, quando fui iniciado na nobre arte da cafifaria. (Aparentemente, cafifa é um termo só usado em Niterói e, vá lá, em certos trechos do Rio de Janeiro, para o que em outros lugares é chamado de pipa, papagaio, arraia, pandorga e por aí vai.)

Por volta dos 8 anos, moleque que é moleque penetra em um bambuzal, escolhe um bambu de bom tamanho, corta-o, depois o desbasta para obter varetas de diferentes comprimentos e espessuras. Volta pra casa e, cuidadosamente, seleciona duas varetas, uma central, maior, e outra para a envergadura, menor. Em seguida, faz uma cruz com as varetas, as amarra bem firme, no ponto de encontro, e cobre essa estrutura com papel de seda, cortado em quadrado com cerca de 30 cm. Prende o papel com goma e, na última etapa, coloca o rabo (ou rabiola) na cafifa, feito de preferência em seda.

Juro que tentei. Minhas mãos inábeis, porém, erravam no tamanho e espessura das varetas, ou na aplicação do papel de seda, ou na quantidade de cola para prender o papel, ou em tudo isso junto… Resultado, minha cafifa transformava-se em algo grotesco e gosmento.

Sem alternativa, pedia o auxílio de meu avô, o adulto de mãos mais habilidosas que conheci. Ele corrigia o que podia ser corrigido ou, na maioria das vezes, recomeçava do zero, e em pouco tempo entregava-me minha cafifa. Só que não era minha, e sim dele, e acabei desistindo da cafifaria.

Meu avô trabalhava na Caixa Econômica Federal. Durante onze meses, dedicava-se ao serviço; em junho, porém, recebia um baloeiro rápido e criava obras-primas de engenharia aérea.

(Sim, sei que soltar balões traz risco de incêndio. Nos anos 1950 e 1960, porém, não havia sequer o conceito de politicamente correto, e as noites frias de junho se aqueciam com os fogos de centenas de balõezinhos).

Em junho de 1960, meu avô projetou um megabalão, da altura de um prédio de dois andares. Ele e minha avó moravam em um sobrado, atrás da casa de meus pais, construído sobre a garagem da residência principal; o balão seria solto do telhado desse sobrado.

Quanto a mim, observador meio entediado de todos os trabalhos, tinha completado 14 anos; descobrira a poesia e estava apaixonado pela primeira vez em minha vida. Enquanto o balão crescia, gomo a gomo, eu só pensava em trocar beijos com a donzela (ambos éramos virgens) e em escrever poemas de amor.

Chegou a noite em que o balão-guaçu seria libertado para voar. Todos ansiosos, lá embaixo, no terreno baldio junto a minha casa, de onde os balões subiam aos céus, e eu no telhado, junto a meu avô, numa depressão dos diabos, que minha história de amor eterno havia terminado bruscamente. Restavam-me os versos – e percebi, num relance, que era para isto que minhas mãos inábeis seriam utilizadas por toda a minha vida: para escrever. Bem ou mal, pouco importava.

Decidi reagir. Quando o balão, ainda se enchendo de ar quente, atingiu o nível do telhado, saltei sobre ele, decidido a partilhar sua viagem, torcendo para que a estrutura mágica projetada por meu avô suportasse meu peso.

Suportou. Estou voando até hoje.

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