O esporte brasileiro se despede de seu maior ícone das quadras. Oscar Schmidt, o eterno Mão Santa, faleceu aos 68 anos nesta sexta-feira (17), em Santana do Parnaíba (SP). Embora tenha nascido em Natal, foi no coração do Brasil que a trajetória do maior cestinha da história da Seleção Brasileira começou a ser escrita, transformando um jovem “desengonçado” em uma lenda mundial.
A relação de Oscar com o basquete nasceu de um acaso geográfico e do olhar atento de um educador. Ao se mudar para Brasília aos 13 anos, o futuro camisa 14 foi incentivado por seu professor de educação física, Zezão, a arriscar os primeiros arremessos. O mestre, que também atuava no Clube Unidade Vizinhança, na Asa Sul, percebeu o potencial no porte físico do garoto e o convidou para conhecer o esporte.
“Se eu não fosse para Brasília, talvez não tivesse virado jogador”, declarou Oscar em memórias recentes. No tradicional clube brasiliense, ele foi acolhido pelo técnico Laurindo Miura, que enfrentou o desafio de coordenar os movimentos do adolescente. Miura aplicava treinos curiosos, como recolher pedrinhas do chão enquanto quicava a bola, um exercício que Oscar descrevia, com seu humor característico, como um verdadeiro “terror”.
Foi também em solo candango que Oscar recebeu o conselho que definiria sua precisão lendária. Ao tentar arremessar sem olhar para o alvo, foi corrigido por Miura, que o instruiu a levantar a cabeça. Diante da dúvida do jovem, o técnico foi profético: “Começa certo, que um dia você vai acertar muitas”. O tempo provou que o treinador estava coberto de razão.
A disciplina forjada nos treinos da Asa Sul resultou em uma marca impressionante de 49.737 pontos em jogos oficiais. Esse recorde mundial de pontuação permaneceu imbatível por décadas, sendo superado apenas em 2024 pelo astro da NBA, LeBron James. Vale destacar que, ao contrário do americano, Oscar atingiu o topo sem nunca ter disputado as extensas temporadas da liga profissional dos Estados Unidos.
A trajetória do ídolo é marcada por uma lealdade inabalável à camisa verde e amarela. Oscar foi o principal responsável por popularizar o basquete no Brasil, tornando-se sinônimo de garra e patriotismo. Suas exibições em Olimpíadas, como a histórica partida contra a Iugoslávia em Atlanta (1996), permanecem vivas na memória dos torcedores, mesmo nos momentos de derrota.
O legado de Oscar vai muito além das estatísticas de cestinhas. Ele personificou a ideia de que o talento, sem o trabalho exaustivo, é incompleto. O apelido Mão Santa era frequentemente contestado pelo próprio atleta, que preferia atribuir seu sucesso às milhares de repetições diárias após os treinos oficiais, hábito que começou ainda na juventude em Brasília.
A morte do astro ocorreu após ele passar mal em sua residência na Grande São Paulo. Seguindo os desejos de discrição para o momento de luto, o velório e o sepultamento serão restritos aos familiares e amigos mais próximos. A notícia gerou uma onda de homenagens de atletas, políticos e fãs por todo o mundo.
Brasília, portanto, deixa de ser apenas uma etapa na vida de Oscar para se tornar o berço de sua vocação. O Clube Unidade Vizinhança e as quadras da capital federal foram as primeiras testemunhas de um fenômeno que levaria o nome do Brasil ao Hall da Fama do basquete mundial.
A história de Oscar Schmidt reafirma o papel transformador do esporte e da educação. Sem o incentivo inicial nas escolas e clubes do Distrito Federal, o Brasil poderia nunca ter conhecido o homem que fez o mundo inteiro admirar o basquete brasileiro.
