Há nomes que não morrem. Apenas aprendem a esperar. Drácula é um deles. Sussurrado em corredores de pedra, repetido em tavernas onde o vinho é escuro demais, guardado na memória das avós que fecham as janelas antes do pôr do sol. Ele atravessa séculos como quem atravessa um aposento, ajeitando a capa, paciente, sabendo que a humanidade sempre precisará de um medo antigo para se lembrar de que está viva.
Dizem que foi homem. Vlad, príncipe da Valáquia, guerreiro duro como inverno, íntimo da guerra e da punição. Os cronistas falam de empalamentos, de florestas de corpos, de um governante que preferia a fama terrível ao esquecimento. Depois, como sempre acontece com figuras que ultrapassam a medida, a história cansou de ser história e virou lenda. E a lenda, mais confortável que os fatos, decidiu que aquele homem não poderia simplesmente morrer. Transformou-o em vampiro.
Foi então que o príncipe ganhou a eternidade, e nós, o arrepio. Drácula passou a ser o visitante que não se convida. O vulto na colina. A janela que range sem vento. Alimenta-se de sangue porque o sangue é tempo líquido, e quem o bebe tenta roubar minutos, anos, futuros. Talvez seja essa a parte mais humana do monstro: o pavor de acabar.
Mas os povos, sábios em inventar defesas contra o inexplicável, também criaram maneiras de enfrentá-lo. Carregue um crucifixo, dizem. A fé, quando erguida pela mão trêmula, vira muralha. Não é o metal que o afasta, mas a lembrança de que há algo maior que a noite. Alho nos batentes, água benta nas soleiras, orações que se repetem como quem costura coragem. Cada gesto é menos um ritual mágico e mais um jeito de o coração dizer: “você não manda em mim”.
E se o pior acontecer, se a capa tocar o chão do quarto, se os dentes brilharem como luas afiadas, a tradição ensina a solução definitiva: uma estaca de madeira, cravada no peito, pregando o morto à sua própria imobilidade. A madeira — viva um dia — derrotando a morte que insiste em caminhar.
Funciona? Ninguém sabe ao certo. Talvez os vampiros sobrevivam justamente porque são metáforas resistentes. Eles voltam sempre que a escuridão cresce demais, sempre que alguém deseja viver para sempre, custe o que custar.
No fim, Drácula pode morar menos nos castelos da Transilvânia e mais nas ambições humanas, nos amores possessivos, na fome de poder que drena o outro até restar apenas palidez.
Ainda assim, quando a madrugada se alonga e um cão uiva ao longe, é reconfortante apertar o crucifixo imaginário, conferir o trinco da janela e agradecer por ter à mão uma estaca, nem que seja feita de superstição. Porque há noites em que acreditar é a melhor forma de amanhecer.
