Notibras

CONES NA CALÇADA, INDIFERENÇA NO VOLANTE

Dia 23 de dezembro, dirigia-me eu a uma consulta com um ortopedista, marcada há semanas. Era difícil obter horário na concorrida agenda do médico. Antes pagávamos plano de saúde para ter um pouco de conforto.

Seguia a pé pela calçada, sob a canícula suburbana. A rua, de mão dupla e movimentada, estava com meia pista bloqueada por causa de um reparo da Light. Apenas cones orientavam, ou fingiam orientar, o trânsito. De repente, um ônibus fecha agressivamente um motociclista de aplicativo, com uma passageira na garupa; a moto cai, eles rolam pelo chão, e a passageira vem cair praticamente aos meus pés.

Populares acodem; alguém exclama que já estão acionando o SAMU. Eu tiro o capacete da passageira para que ela respire melhor. O motociclista levanta-se, estropiado, sem entender direito o que aconteceu. Apenas então surgem homens de colete para tentar organizar o fluxo de automóveis; estavam descansando em alguma sombra pelas redondezas.

Enquanto isso, o ônibus, ainda parado, fecha completamente o trânsito da artéria suburbana carioca. Eu, impaciente, esperava que o motorista saísse de lá e viesse ver o que havia acontecido. Em instantes, ele arranca com o ônibus. Surpreendentemente, foge do local, sem querer ao menos saber se as vítimas do atropelamento estavam vivas ou mortas. Desprezo total da parte de uma pessoa que, é de se supor, é profissional do volante.

O SAMU demora, a polícia militar demora e, enquanto isso, anônimos continuam prestando auxílio aos acidentados.

A chefe da passageira da moto telefona. Ela não consegue atender; passa o telefone para mim. A mulher, preocupada, queria saber se a funcionária chegaria na hora. A preocupação é com o cumprimento do expediente.

Telefono para a empresa de ônibus relatando o acontecido. Dou o prefixo do veículo. Eles afirmam que irão mandar rapidamente um fiscal ao local, que não é longe da sede.

Nisso, chegam bombeiros e, logo em seguida, a polícia militar, que toma o meu relato do acontecido. As vítimas são socorridas. O ônibus, que era de uma linha circular, passa na rua, em sentido oposto. Eu o aponto. O sargento o para; já estava com outro motorista ao volante, que substituíra o envolvido no acidente. Já sabiam do ocorrido na empresa: o importante é faturar. Ninguém da viação comparece ao local.

Todos, motorista, ônibus e eu, de testemunha, vamos à delegacia. Só lá aparecem o fiscal da empresa e, mais tarde, o motorista causador do atropelamento, junto de uma advogada.

Ao entrar para dar seu depoimento, o homem passa por mim. Vai solfejando o hino do Flamengo — bela tranquilidade para quem, horas antes, atropelara pessoas, saindo sem ao menos tentar prestar socorro.

Após uma espera de algumas horas na delegacia, até eu ser ouvido, volto também aos meus afazeres. Penso que somente eu e os acidentados alteramos sensivelmente nossas rotinas no dia.

O restante é esperado. Está no programa. O boletim vira papel, a ocorrência vira número, a vítima vira “atraso”, e o ônibus vira a esquina. A cidade, sempre profissional, segue rodando: um hino na boca, um protocolo na mão, e um desprezo eficiente no volante.

A consulta no ortopedista fica para o ano, quando o médico tiver outro horário na agenda.

………………

Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) é editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Martínez e Cecília Baumann, comanda o Café Literário. Carioca, é advogado e professor. Poeta, escreveu os livros “A Verdade nos Seres” e “Território do Sonho” (no prelo).

Sair da versão mobile