Monstrengos são organizados. Quer dizer, mais ou menos. No início de outubro, a Confederação Brasileira de Monstros, CBM – organizada nos moldes da CBF, tão ineficiente quanto e, dizem as más línguas, com os mesmos dirigentes ocultos – recebeu um e-mail da Federação Internacional de Monstros, FIM. Estava escrito o seguinte:
“Saudações, irmãos do Brasil. Estão convidados para o Encontro Internacional de Monstros, a se realizar em 28 de outubro em Frederick, Maryland, EUA. Tema, Os Monstros e o Meio Ambiente. Encerramento na noite de Halloween, com uma orgia da pesada. FIM”.
Os monstrinhos brasileiros ficaram excitadíssimos. Não tanto pelas discussões ambientais, viviam na Amazônia e há muito tentavam proteger a floresta de madeireiros e garimpeiros ilegais; o que os interessou foi a orgia de encerramento. Gostavam do negocinho, morriam de inveja do boto, que bota nas caboclas o tempo todo. Assim, sem um tostão de ajuda da CBM, o saci e o curupira decidiram comparecer. A mula sem cabeça também queria ir, sonhava em dar para um cavalo alado ou um hipogrifo e ter lindas mulinhas voadoras sem cabeça (mulas são estéreis, mas com um pouco de magia tudo é possível). Mas, tadinha, não conseguiu tirar passaporte, que exigia foto do focinho do bicho. Burocracia é monstruosa, implacável, uma merda.
O saci e o curupira viajaram invisíveis num avião, desembarcaram em Washington, DC, e foram de trem para Frederick, a apenas 72 km da capital dos States. Ficaram maravilhados com a multiplicidade de ogros – um sinônimo para monstros, são poucos – mas nem entraram no salão do Encontro; o que eles queriam era transar, trepar muuito.
De repente, o curupira viu a monstrinha de seus sonhos. Era uma ninfa super rodada, que costumava dar mais que oliva na oliveira pros sátiros da antiga Grécia: foram ela e suas irmãs, todas ninfomaníacas, que deram má fama aos bodinhos, fazendo do termo sátiro sinônimo de taradão. Ela estava sendo assediada por um ser de pesadelo, um pássaro-réptil de bico metálico e um único olho na testa. Em seu peito havia uma placa com os dizeres: “Snallugaster – Comitê de recepção”.
Guglando em seu celular, o monstrinho brazuca verificou que o bicho era nativo de Frederick. Seu nome, de origem alemã, significa “fantasma rápido”. Mas não tinha nada de fantasmagórico, parecia bem vivo. E feio pra dedéu. E excitadíssimo, dava pra ver, monstros não vestem calças.
Aproximando-se, também de pintinho duro, o curupira perguntou em monstrenguês, a língua que todos eles entendiam:
– Oi, monstrinha linda. Esse bicho feio está te incomodando?
O snallygaster olhou com desprezo para o brasileiro, baixinho, pouco maior que um anão, de cabelos vermelhos e pés voltados para trás. Só que o curupira tem uma força sobrenatural. E um tesão, digamos, monstruoso.
– Some, anãozinho, ou te mato.
– Bichos maiores que você já tentaram, coisa feia. Cai dentro.
O saci, que ouvira a conversa entre os dois machos no cio, falou pro curupira.
– Porra, meu, tu ficou louco? O cara é uma montanha!
– Não esquenta, brother. Tu sabe que sou forte. E duvido que ele saiba capoeira. Seguinte, vou ficar de costas. Ele não vai atacar, vai pensar que arreguei. Tu me avisa quando ele estiver próximo, bem atrás de mim, dou um voo do morcego e golpeio os cornos dele com os dois pés. Ele cai, pulo em cima e encho ele de porrada.
Mas o sanllygaster não tinha um pingo de fair play. Atacou – não o curupira, mas o saci. Pegando-o pela perna, deu uma surra de saci no surpreso protetor das matas brasileiras. Já ia beber o sangue do monstrinho de pés para trás, todo machucado no chão e desacordado, quando se ouviu uma voz profunda, semelhante a um trovão.
– Não.
Era o pronunciamento inapelável do thunderbird, o pássaro trovão, presidente da FIM, o mais belo e poderoso dos monstrengos. Gigantesco, estava nos sonhos molhados de todas as monstrinhas. Mas ele nem tchuns, limitava-se a desfilar, sobranceiro, e ser admirado; aparentemente não gostava muito da fruta que enchia de saliva a boca do snallygaster e do curupira.
– Levo vocês pra casa, irmãozinhos – continuou o thunderbird. Colocou-os com delicadeza nas costas, mandou que o saci segurasse bem o companheiro e levantou voo. Duas horas depois, aterrissou na floresta, deixou em terra os brazucas desconsolados e voltou pra Frederick.
Moral da história: o brasileiro precisa parar com essa mania de achar que é fodão, mais esperto que a esperteza, o rei da sacanagem.
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Nota do autor: este conto tem duas inspirações. Os relatos de minha amiga Silvinha Lakatos, que está morando em Frederick e me informou sobre o sanallygaster. E uma crônica do tempo em que as galinhas tinham dentes, escrita, creio, por Stanislau Ponte Preta (minha memória virou uma lama). No original, um malandro carioca briga, cheio de ginga, com um marinheiro sueco ou alemão e leva uma surra de criar bicho.
