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Conheça a história e os segredos do primeiro templo de alvenaria

Localizada entre as superquadras 307 e 308 Sul, a Igreja Nossa Senhora de Fátima é muito mais do que um templo religioso; é um dos maiores símbolos da fundação de Brasília. Popularmente conhecida como “Igrejinha”, ela detém o título de primeiro templo católico em alvenaria a ser erguido na capital federal. Inaugurada em 28 de junho de 1958, a capela tornou-se um marco da arquitetura moderna e da fé no Planalto Central.

A construção da igreja teve uma motivação pessoal e emocionante: foi o pagamento de uma promessa da então primeira-dama, Sarah Kubitschek. Ela prometeu erguer o santuário em agradecimento pela cura de sua filha, Márcia. Diante da urgência do pedido, a obra foi realizada em um ritmo impressionante, sendo concluída em apenas cem dias após o lançamento de sua pedra fundamental, em outubro de 1957.

O projeto arquitetônico leva a assinatura do renomado Oscar Niemeyer, com cálculos estruturais do engenheiro Joaquim Cardozo. O desenho é notável por sua simplicidade e elegância, apresentando uma laje triangular inclinada sustentada por apenas três pilares. O formato icônico do telhado não foi por acaso: a estrutura faz uma referência direta ao chapéu utilizado pelas freiras daquela época.

Na parte externa, a igreja exibe um dos trabalhos mais famosos do artista Athos Bulcão. As paredes curvas são revestidas por azulejos azuis e brancos que formam figuras estilizadas. Curiosamente, este é o único painel de Athos com estampas figurativas, representando a Estrela de Belém — que guiou os Reis Magos — e a pomba, símbolo cristão do Espírito Santo.

O interior da Igrejinha também guarda histórias de transformações artísticas. Originalmente, as paredes eram decoradas com afrescos de Alfredo Volpi, que retratavam anjos e bandeirolas. No entanto, durante uma reforma na década de 1960, essas pinturas foram cobertas por tinta azul, uma decisão que até hoje gera debates entre historiadores da arte e preservadores do patrimônio.

Em 2009, o artista Francisco Galeno, que foi aluno de Volpi, foi convidado para dar uma nova vida ao interior do templo. Ele buscou inspiração na mesma fonte do mestre, utilizando elementos da cultura popular como carretéis de linha, pipas e as famosas bandeirinhas. Para Galeno, os carretéis remetem ao universo feminino e os brinquedos fazem alusão aos três pastorinhos que viram a Nossa Senhora em Fátima.

A estrutura interna da nave é composta por uma parede única em formato de “U”, que sustenta toda a laje de concreto. Um detalhe curioso revelado pelo projeto é a existência de uma sacristia “secreta”, escondida no fundo desse “U” por meio de uma sobreposição estratégica de paredes. Apesar de sua importância histórica, o espaço é íntimo, com capacidade para cerca de 100 fiéis.

A inauguração da capela foi marcada por imprevistos e adiamentos. A data original foi alterada três vezes devido a atrasos nas obras, até que finalmente ocorreu em 28 de junho de 1958. Na cerimônia, Dona Sarah Kubitschek descerrou a placa comemorativa que permanece no local até hoje, registrando que o santuário foi erguido em cumprimento de sua promessa de fé.

Logo após a bênção inaugural dada por Dom Armando Lombardi, a igreja sediou seu primeiro evento social: o casamento de Maria Regina Pinheiro com Hindenburgo Chateaubriand Diniz. O enlace teve como padrinhos ninguém menos que o presidente Juscelino Kubitschek e sua esposa, Sarah, selando o destino da Igrejinha como um local de celebrações importantes para a sociedade brasiliense.

Hoje, a Igreja Nossa Senhora de Fátima é um patrimônio nacional tombado pelo IPHAN desde 1987 e continua sendo um dos pontos turísticos mais visitados da capital. Conservada e sob a responsabilidade da Arquidiocese de Brasília, ela permanece como um testemunho silencioso do início da construção da cidade e do encontro entre a promessa de uma mãe e o traço de Niemeyer.

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