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Conto baseado no tango Sur

Laura saiu de Vila Pompeia, São Paulo, com planos de ir direto para Pompeya, bairro ao sul de Buenos Aires. Sabia de cor o belo tango Sur, de Anibal Troilo e Homero Manzi, queria conhecer las noches de Pompeya, encontrar seu amado, qualquer um, sob una luz de almacén… Tinha 20 anos e estava tremendo de tesão pela vida.

Antes, porém, teve de deixar o aeroporto e dirigir-se à agência de turismo, onde encontrou Domingo, seu guia. Era um homem de uns 25 anos, atraente, fora escolhido por isso. E por falar português, era filho de brasileira.

– Vamos para Pompeia. Quero conhecer la esquina del herrero…

– Ah, sim. – “É uma aficionada de Sur”, pensou ele. “Vai ficar desapontada quando souber que o bairro foi quase todo transformado, hoje se chama Nueva Pompeya.”

Mas explicou, era sua obrigação, e viu a tristeza tomar conta das feições da jovem.

– …então ninguém sabe qual era a esquina del herrero – concluiu. Mas há muito a ver em Buenos Aires. Quer que a leve a El Viejo Almacén, templo do tango?

– Sim… disse ela, ainda desiludida.

À noite, a magia do bandoneón conquistou Laura, que derreteu-se todinha ao tanguear nos braços de Domingo. Ele teve uma ideia:

– Cariño, vamos fazer uma viagem no tempo? Vamos para Nueva Pompeya, deixamos que as palavras de Sur nos guiem e fazemos reviver o velho bairro. Quer?

Ela apertou-lhe a mão com força e colou seu corpo ao dele.

No bairro onde foi escrito Sur, ele guiou-a pelo tempo.

– Imagine, no lugar desses edifícios, casinhas de famílias operárias… Os terrenos sempre inundados – la inundación – rodeavam as parte altas do bairro. Para assegurar a comunicação, foram feitos trabalhos de terraplenagem – el terraplén – e sobre o terreno levantado passava um ramal ferroviário.

Laura escutava, fascinada. Ele continuou.

– Mas a magia de Pompeya, das noites de Pompeya, não era isso, nem o tango, era a presença de mulheres lindas como você, como vos, de veinte años tremblando de cariño… Posso beijá-la?

Ela o beijou apaixonadamente sob a luz da lua, da rua, não de um almacén. Foi delicioso do mesmo jeito.

E ela se entregou ao encanto de Sur, duplo poema de amor. Amor por um lugar que não existe mais, evocação das imagens da juventude em um bairro que mudou, amor pelo homem que lhe rouba um beijo e desliza os dedos por entre seus cabelos de namorada.

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