Há escritores que chegam ao mundo com uma biografia de vitrine: cafés, manifestos, prêmios precoces, a pose pronta para a fotografia. Cora Coralina vem do outro corredor da casa, aquele que passa pela cozinha, pelo quintal, pelo tacho no fogo, pela rua estreita que a cidade oficial chama de beco como quem diminui, sem entender que ali cabem mundos. Seu “lado B” não é um subterrâneo: é o lugar real onde a vida acontece quando ninguém está aplaudindo.
Cora Coralina é o nome literário de Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas, nascida na Cidade de Goiás em 20 de agosto de 1889, filha de um velho desembargador da província da “Parahyba do Norte”, e falecida em Goiânia em 10 de abril de 1985. E há, já nesse gesto de se renomear, uma pista do que ela faria com o idioma: a autora que poderia ter sido apenas “mais uma Ana” escolhe ser Cora e, segundo registro institucional goiano, ela mesma explicava o pseudônimo como uma espécie de síntese afetiva e cromática: “Cora” ligado a coração, “Coralina” ligado ao vermelho, como se o nome inteiro carregasse um “coração vermelho” pulsando na assinatura. É uma curiosidade que vale menos como etimologia rigorosa e mais como retrato: Cora queria um nome que soasse vivo, caseiro e essencial, um nome que já viesse com um quintal dentro.
O mais espantoso, porém, é que essa autora que hoje parece inevitável, dessas que a gente lê como se sempre tivessem existido na estante do país, passou décadas escrevendo sem a consagração pública de “escritora”. Começou cedo, ainda adolescente, mas viveu longe dos grandes centros e das modas literárias, e atravessou a vida como atravessam tantos: trabalhando, sustentando casa, negociando tempo com a urgência do cotidiano. A biografia costuma fixá-la como “doceira”, e a palavra às vezes aparece como enfeite pitoresco; só que, lida com atenção, ela funciona como chave estética. Cora foi doceira, sim, e o seu verso aprende com esse ofício a paciência da calda, o ponto exato do gesto, a sabedoria de quem sabe que o tempo também cozinha.
É por isso que a estreia editorial dela tem gosto de paradoxo e de denúncia: o primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, sai em 1965, quando ela já tinha quase 76 anos. O país, atrasado para o próprio encontro, levou uma vida inteira para perceber que ali havia uma voz grande demais para caber no rótulo de “simplicidade”. Porque a simplicidade de Cora não é falta de técnica; é escolha de foco. Ela não escreve para enfeitar o mundo, mas para revelar o que o mundo varre para baixo do tapete: a gente comum, as mulheres sem pedestal, o interior sem caricatura, as ruas pequenas com seus dramas enormes.
E então acontece aquela virada quase cinematográfica que a história literária adora, e que observo com uma ponta de ironia: em 1979, Cora recebe uma carta de Carlos Drummond de Andrade, que tomara contato com sua obra e, a partir dali, assume para si a tarefa de apresentá-la ao Brasil. Há quem conte esse episódio como se a autora precisasse de um carimbo masculino para existir, e há algo de verdade nisso, porque o cânone também é uma alfândega. Mas há, sobretudo, uma injustiça a ser nomeada: Drummond não cria Cora, somente abre a janela que o país insistia em manter fechada. No ano seguinte, 1980, ele escreve sobre ela em espaço jornalístico, ajudando a ampliar esse alcance nacional. A consagração, nesse caso, não é o surgimento de uma poeta; é o atraso de um reconhecimento.
Como se a obra pedisse um endereço, o mito de Cora também tem casa e não é metáfora. A chamada Casa Velha da Ponte, ligada à sua memória às margens do Rio Vermelho, foi construída por volta de 1770 e hoje integra o circuito de preservação e visitação associado à autora. É bonito, e profundamente coerente, que a literatura dela tenha paredes, assoalho, objeto, janela: Cora escreve como quem guarda, e a casa guarda como quem escreve. A cidade, o beco, o quintal e o fogão não são “temas”, são a gramática de uma experiência que o Brasil costuma considerar menor até perceber, tarde demais, que o “menor” era apenas o seu próprio olhar.
No fim, Cora Coralina encarna uma pergunta incômoda: quantas Coras ficam pelo caminho porque a vida real não combina com a imagem oficial de escritor? A obra dela responde sem discurso e sem pose, responde com aquilo que parece pequeno e, de repente, se revela inteiro. Cora não precisou abandonar o cotidiano para ser grande, mas fez o oposto: transformou o cotidiano na medida exata da grandeza.
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Cassiano Condé, 82, gaúcho, deixou de teclar reportagens nas redações por onde passou. Agora finca os pés nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai pérolas que se transformam em crônicas.
