Minha mãe tem uma gaveta que é basicamente um museu do inútil. Abri outro dia pra procurar uma pilha AAA e saí três horas depois com a alma cheia de poeira e nostalgia barata. Tinha de tudo:
carregador de Nokia tijolão de 2003
caixa de fósforo com dois palitos dentro (“vai que acaba o gás”)
cartões de Natal de 1998 assinados por gente que nem lembro a cara
um relógio parado às 3:47 desde 2011
e uma nota de três reais do tempo que o cruzeiro ainda existia (ela jura que é item de coleção).
Eu ri e falei:
Mãe, isso aqui é o INU: Instituto Nacional do Inútil.
Ela respondeu sem tirar os olhos da novela:
Inútil coisa nenhuma. Isso aqui é minha vida guardada em pedaços.
Fiquei quieto. Porque, pensando bem, eu também tenho minha própria coleção de traste-lembrança.
No armário:
a camiseta do show do Legião em 2008 que não cabe mais nem em sonho, mas “faz parte da história”
o tênis todo rasgado da época que eu jogava bola na rua e me achava o Romário
cartas de ex-namoradas que hoje são casadas e têm filho com nome de influencer
ingresso de cinema de 2015 do filme Titanic (“pra lembrar que eu chorei igual criança”).
E de repente o verso veio sozinho:
Guardo botão que não tem mais camisa
guardo sorriso que não tem mais boca
guardo bilhete de “volta em 5 minutos”
de alguém que nunca mais voltou
e ainda assim
a gaveta não reclama
gaveta entende
que a gente não guarda coisa
a gente guarda tempo.
Tem humor nisso tudo, claro. Semana passada precisei de fita isolante. Procurei na caixa de ferramentas: nada. Procurei na gaveta da mãe: achei três rolos, um deles com exatamente 4 centímetros de fita sobrando. Perguntei:
Mãe, por que guardar isso?
Ela:
Porque um dia vai faltar 4 centímetros e eu vou ser a heroína da casa.
Dois dias depois o fio do liquidificador soltou. Adivinha quem salvou o suco de laranja do café da manhã? A rainha do resto de 4 centímetros. Ganhei abraço e café com pão na chapa. Valeu cada centímetro guardado.
Mas tem a parte séria também.
Quando meu avô morreu, a primeira coisa que minha avó fez foi abrir a gaveta dele. Tirou um canivete enferrujado, uma moeda furada, um lápis roído. Chorou em cima de cada pedacinho. Não era traste. Era ele inteiro ali, condensado em objetos que só faziam sentido pra quem amou.
Então entendi: a gente não guarda coisa inútil.
A gente guarda prova.
Prova de que riu naquele show, de que viajou com R$ 47 no bolso e voltou vivo, de que alguém já escreveu “te amo” num guardanapo de lanchonete e aquilo bastou.
Um dia eu vou morrer e alguém vai abrir minhas gavetas.
Que encontre carregadores órfãos, ingressos rasgados, bilhetes amarelados.
Que ria, que chore, que entenda:
aqui morou alguém que não jogou o passado fora
porque sabia que o passado, às vezes,
é o único lugar onde ainda cabe inteiro.
E se sobrar espaço, que deixem lá
aquele botão sem camisa
pra eu levar pro céu
vai que São Pedro tem um casaco faltando.
