MULHER DE POUCAS PALAVRAS
Acostumada ao silêncio, sussurra raiva.
Gritar… Não é coisa de gente!
Aprendizado que menina tem que ser contida.
Obediência é passada
Educação em tempo desusado
Diziam antigo saberes
Silêncio é ouro – prata é a palavra
Mas ouvido não é surdo
Todavia, caixa de reflexão.
Arrependida esconde a frustração
Nada a impede da observação
Conter o sentir, silenciar o dizer.
Carregar o fardo da estupidez no ar
Mulher de pouco falar
Também não se faz calar
Consumida pela censura
Resposta engolida, rouquidão abafada,
Fuga da voz.
Garganta e peito apertado
Vontade de desabafar.
Mulher de poucas palavras.
Não confunde silêncio à sujeição
Covardia está longe de se instalar
Só precisa do momento certo
Para vomitar
Liberta – quem receberá o troco
O provocador ou o tolo,
Arroubará todo o esporro
Guardado… Acumulado no corpo?
Por fim, escolhe o alvo.
Àquele que costumava lhe amordaçar
Mulher de poucas palavras
Agora – livre
Para falar o que pensar.
MULHER, SEREIA OU IEMANJÁ
Mergulhei nas águas profundas
Nadei nas rasas também.
Em todas me encontrei.
A cada mergulho,
Buscava pedaços,
Peças desencaixadas…
Um pouco de mim!
Não resistir à pressão
D’ água sobre meu fardo.
Tinha o raso, como refúgio,
Para voltar, aliviada.
A cada mergulho mostrava
Minh’ alma desnudada,
Partes com seus conflitos;
Outras, menos aflitas.
Mergulho nos fantasmas…
Apoderava-me da coragem.
Das águas conhecidas, nadadas,
Permitiam-me ver o fundo do mar…
Com medo, enfrentava o denso,
Repousava na margem,
Descansava o pensamento,
Desejava me acalmar
Nadei no doce, no salgado…
Momentos pares da vida.
Mulher, sereia, Iemanjá…
Águas a me vestir…
Parte de mim, sentir…
Todas são meu login!
.………
Hannah Carpeso, carioca nascida em 1949, é especialista em Educação e Bioética, com passagem pelo magistério e pela Administração Pública Federal. Escreve desde a adolescência e transita entre poesia, contos, crônicas e ficção. É autora de Vidas Paralelas, publicada pela Editora Mandacaru.
