O texto de Cassiano Condé, publicado em O Lado B da Literatura, no Café Literário, em 25 do corrente mês, é uma análise precisa sobre a “guerrilha literária” travada por Daniel Marchi e Eduardo Martínez. Ao rotulá-los como escritores “fora do cardápio”, Condé expõe uma realidade incômoda: o mercado editorial brasileiro muitas vezes funciona como um restaurante de menu fixo, onde as grandes editoras decidem o que o público deve consumir, ignorando sabores mais autênticos e independentes.
O diferencial de Marchi e Martínez não reside apenas no fato de produzirem literatura de alta qualidade à margem do mainstream, mas na transformação de sua exclusão em uma plataforma de inclusão. Eles não aceitaram o papel de “escritores invisíveis”; em vez disso, criaram o Café Literário, um espaço que subverte a lógica da competição para estabelecer uma lógica de acolhimento. Ao buscarem dar voz a outros escritores, eles deixam de ser apenas autores para se tornarem curadores e impulsionadores de uma nova cena literária.
Essa postura rompe com o mito do escritor como um ser isolado em sua torre de marfim. Condé destaca que, para Marchi e Martínez, a literatura é um gesto de generosidade. Enquanto as grandes editoras buscam o “próximo fenômeno de vendas”, a dupla foca no “texto bom que precisa ser lido”. Esse compromisso com a base, com o professor e com o leitor comum, é o que permite que eles sejam lidos em escolas e comunidades, alcançando uma capilaridade que o marketing tradicional muitas vezes não consegue atingir.
A análise de Condé também sugere que ser um escritor “fora do cardápio” em 2026 é, na verdade, uma posição de privilégio intelectual. Sem as amarras comerciais que exigem fórmulas repetitivas, Marchi e Martínez têm liberdade para explorar a crônica diária e o conto sem censura estética. Eles provam que a autoridade literária hoje não emana de um selo na capa, mas da constância e da honestidade do texto que chega ao leitor através do Café Literário.
Outro ponto crucial é a atuação como “abridores de janelas”. Ao utilizarem seus espaços para enaltecer colegas, eles combatem o silenciamento imposto pelo eixo Rio-São Paulo. Essa rede de apoio mútuo, capitaneada por eles e por Cecilia Baumann, é o que garante a sobrevivência da bibliodiversidade no Brasil. Eles entenderam que, para a literatura independente prosperar, é preciso criar um ecossistema onde o sucesso de um autor abra caminho para o próximo.
Em suma, Marchi e Martínez são os operários de uma literatura que se recusa a ser meramente decorativa. O texto de Cassiano Condé valida essa trajetória ao mostrar que o “Lado B” é, na verdade, o lado onde a vida pulsa sem filtros. Eles não estão apenas escrevendo livros; estão escrevendo uma nova forma de existir no mercado editorial, onde o compromisso maior é com a verdade da palavra e com a democratização do acesso ao palco literário.
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Link do texto do Cassiano Condé: .https://www.notibras.com/site/marchi-e-martinez-o-italiano-que-se-juntou-ao-espanhol-e-deu-literatura/
