Notibras

DANTON, ROBESPIERRE E OS (DES)CAMINHOS DA REVOLUÇÃO FRANCESA

Paris, 1794, residência do deputado membro da Convenção, Georges-Jacques Danton.

— Maximilien Robespierre, o grande, que prazer revê-lo!

— O Prazer é meu, Georges! Então, finalmente você voltou à ativa.

— Pois é, como sabes, depois que minha esposa faleceu, fiquei um tanto deprimido e me afastei da política, mas agora decidi retornar pelo bem da França e da revolução.

— Você é sempre necessário, cidadão, bem-vindo de volta!

— Obrigado, Maxime! Fiquei muito feliz quando recebi o seu pedido de audiência.

No dia anterior a esse histórico e decisivo encontro para a história da França revolucionária:

— Maxime, você vai mesmo se humilhar e pedir uma audiência para ele? Você é o chefe do Comitê de Salvação Pública e líder de todos os franceses.

— É preciso, Antoine! Você sabe que sem Danton e seu carisma popular magnético não teria havido Revolução alguma na França.

— Pode ser, mas agora ele está se colocando na contramão da História! Desde que retornou do interior, manifesta-se e escreve contra os Comitês e o nosso governo. Está notoriamente a serviço da contrarrevolução.

— É exatamente por isso que precisamos trazê-lo novamente para o nosso lado… ou nossa luta estará acabada.

— Você que sabe, Maxime, por mim, ele já teria sido acusado de traição e estaria a caminho da guilhotina.

— Antoine, se chegarmos a isso, tudo estará perdido para a carruagem da Revolução! Queiramos ou não, ele é Danton, o símbolo da queda do absolutismo na França.

— Georges, você vai mesmo aceitar conversar com esse medíocre ditador sanguinário?

— Dobre a língua, Camille Desmoulins! Maximilien Robespierre está muito longe de ser medíocre! Queiramos ou não, é o nome do momento que encarna a Revolução na França. Ele, com toda a justiça, é chamado de ” o incorruptível” e isso já não é pouca coisa.

— Sim, mas você é o ídolo das ruas, o homem que ergueu mais alto a bandeira da Revolução quando ela tomou impulso.

— Que seja, mas hoje é Maxime quem está no leme e conduz a todos nós nesse mar de tubarões famintos por lucro, vantagens e busca obsessiva por poder ilegítimo.

Voltando ao momento da audiência, após as palavras protocolares, os dois gigantes da revolução francesa observaram um ao outro com um misto de admiração, curiosidade e desconfiança.

Ambos eram oradores brilhantes, políticos admirados por suas raras habilidades e líderes natos, embora de diferentes estilos.

Danton, espontâneo, vibrante, avassalador. Robespierre, reflexivo, metódico, estrategista.

Foi Robespierre quem rompeu o mágico silêncio, indo direto ao ponto:

— Georges, o que você está fazendo? Estás desautorizando e vilipendiando os comitês de Salvação Pública e, por tabela, a autoridade da Convenção e do nosso governo.

— Não, Maxime! Só estou dizendo que os comitês já cumpriram o seu papel e, para o bem da revolução, tem que acabar já! O nosso governo precisa terminar com as execuções e se dedicar a unir o país antes que seja tarde.

— Ora, George, assim como eu, você apoiou a execução do rei e de outros nobres perigosos para a nova ordem e foi exatamente você o idealizador dos Comitês de Salvação Pública como lastro da Revolução e da autoridade da Convenção.

— Sim, mas esse tempo em que fiquei afastado me mostrou que o caminho agora tem que ser outro, uma estrada pavimentada com mais amor e menos terror.

— Amor, terror, palavras ao vento, Georges. A Revolução ainda está em curso e tem inimigos irreconciliáveis e poderosos por todos os lados. Sem os Comitês e a guilhotina, ficaríamos fragilizados e, logo, indefesos frente àqueles que querem destruir as conquistas revolucionárias.

— Maxime, já chegamos ao limite! Você quer virtude além da conta para a multidão! Somos todos humanos, limitados e quase ridículos, seres imperfeitos que jamais usarão mais de dez por cento da cabeça. Aqui embaixo, todos precisam respirar e conviver com algumas injustiças.

— Georges, só quero garantir dignidade e direitos básicos para oitenta por cento do povo francês. É pedir muito? Não é isso que fará os homens felizes? Você quer abandonar o povo francês em troca de tranquilidade e prosperidade para os seus algozes ou você quer o poder pelo poder?

Nesse momento, Danton levantou-se, aproximou-se do colega e, encolerizado, encarou Robespierre vis-à-vis. Com um gesto brusco, arrancou da cabeça do colega a peruca protocolar que todos os representantes do povo usavam em ocasiões oficiais.

— Você fala em tornar o povo e os homens felizes, mas o que você sabe sobre isso? Você nem sequer é um homem completo, não bebe, não canta, não grita… e dizem que nem faz amor, a não ser consigo mesmo! E você pergunta se eu quero o poder? Eu já tenho o verdadeiro poder: as ruas!

Impávido e calado, Robespierre permaneceu sentado, ao mesmo tempo em que observava fixamente o colega que, após pronunciar as ofensivas palavras, afastou-se com os braços levantados.

— Desculpe, Maxime, falou Danton, retirando também a sua protocolar peruca.

Após Robespierre continuar em silêncio, Danton continuou a sua reparação:

— Sei que às vezes sou impulsivo, grosseiro e desajeitado! O que quero dizer é que, ao contrário de você, eu frequentei as ruas e conheço a índole mais íntima dos homens. Mas sei que, apesar das nossas diferenças, no fundo queremos o mesmo para o povo francês: dignidade, felicidade e paz. Não devemos permitir que nada e nem ninguém nos separe!

Parecendo indiferente à ofensa e ao posterior pedido de desculpas de Danton, Robespierre levantou-se e, por sua vez, aproximou-se do colega. Abraçando-o, falou de forma doce, mas incisiva:

— Georges, abandone os “indulgentes” e una-se a nós, afinal, ambos somos jacobinos de coração! Juntos, seremos invencíveis! Alinhados, poderemos derrotar os realistas, os financistas, os grandes burgueses, todos os reis absolutistas da Europa e outros inimigos da Revolução.

Danton, tocado, encostou a cabeça no peitoral de Robespierre e deixou lágrimas escorrerem pelo rosto.

Recomposto, o mais popular deputado da França revolucionária falou com voz embargada:

— Maxime, eu te admiro de coração e mente, gostaria muito de segui-lo, mas não a qualquer lugar! Dissolva os comitês e proíba as execuções, eu serei o seu braço direito para qualquer coisa que quiser fazer!

Decepcionado com a resposta do íntimo adversário, o chefe do Comitê de Salvação Pública de Paris e líder nacional dos jacobinos afastou-se e, sombriamente, disparou:

— Georges, infelizmente esse encontro foi um erro, um engano! Há muito tempo você já escolheu o seu lado de maneira muita clara! Nos veremos no salão de reuniões da Convenção.

— Vais me acusar de ser traidor do povo ou da Revolução, Maxime?

— Eu não, mas Saint-Just já tem pronto um auto de acusação com essas duas anotações para ser lido publicamente, até hoje consegui impedir que isso ocorresse. Desejo boa sorte quanto a sua defesa!

— Entendo! E quanto ao nosso querido amigo comum e brilhante jornalista revolucionário, Camille Desmoulins? Também será acusado?

— Vou agora para a casa de Camille fazer um apelo no sentido de que ele retire as suas críticas ao Comitê e ao governo revolucionário, antes que o jornal dele seja fechado. Depois da sua postura de hoje, Georges, nada poderia me deixar mais triste se isso ocorrer.

Desolado e tristemente irônico, Danton falou:

— Maxime, você sabe que, qualquer que seja a ordem, logo nós dois iremos subir ao cadafalso e teremos as nossas cabeças mostradas ao povo, não é mesmo?

— Talvez, Georges, mas tenho o dever de tentar caminhar ao lado do povo e da Revolução até o fim. Talvez essa história já esteja escrita e seja mesmo verdade que as revoluções são como mães que, ao final, sempre devoram os seus próprios filhos, não sei. De qualquer forma, não me queira mal, parte de mim sempre estará com você, qualquer que seja a ordem da nossa visita à guilhotina.

— Eu digo o mesmo, meu amigo, poucos como nós já existiram ou ainda existirão. Como disse o grande Júlio César, “alea jacta est” e que os deuses nos perdoem pelos nossos erros!

Após feita a denúncia e obtida a autorização do plenário da Convenção, os piores prognósticos daquela audiência informal se concretizaram:

Danton, Desmoulins e mais cinco deputados acusados de atividades contrarrevolucionárias foram processados e condenados à morte pelo Tribunal Criminal do Comitê de Salvação Publica de Paris.

E, um mês após esses eventos, ocorreu o que ficou registrado na história como reação termidoriana:

Robespierre, Saint-Just e outros líderes jacobinos foram acusados de abuso de poder, sendo também sumariamente condenados à morte na guilhotina.

Cinco anos depois, em 9 de novembro de 1799, no episódio que ficou conhecido como 18 de Brumário, Napoleão Bonaparte dissolveu o parlamento e ascendeu ao poder como cônsul e, logo, via plebiscito, tornou-se imperador dos franceses. Mas isso já é outra história.

Sair da versão mobile