Embora não consiga esquecer dos banhos de chuva que me refrescavam da alma à ponta do nariz ereto como a estaca que matou o vampiro da meia-noite, definitivamente não sou saudosista. Contudo, a grande descoberta é para que serve ou serviu o poder conquistado se continuo achando que as melhores coisas da vida foram conquistadas na infância, adolescência e juventude? Fosse verão, inverno, outono ou primavera, lá estava eu pronto para sonhar e viver o apagar das luzes. Mesmo longe dos holofotes, valia a pena acordar com ideias para o novo dia. Como era bom dormir sem medos e com a confiança de mais uma noite prazerosa.
Ou seja, é desnecessário o poder e ser poderoso se não atentarmos para a máxima de que voltaremos para o mesmo lugar de onde viemos. Isso é bíblico. Como é bom chegar à terceira idade e lembrar disso tudo, ter a certeza de que idoso é um jovem que deu certo. Faz parte das velhas contradições. É fundamental tê-las, vivê-las, experimentá-las, avaliá-las, passá-las adiante. É ter uma boa história para contar. Como foi bom ter vivido num mundo de incorreções, de contradições, mas de seriedade e zero de hipocrisia.
É fantástico lembrar que, como jovens, adolescentes ou adultos, podíamos usar adjetivos no aumentativo ou no diminutivo como referência a amigos e conhecidos afrodescendentes, acima ou abaixo do peso, de cabelos crespos ou alisados, efeminados, desprovidos de beleza ou moradores de favelas. Era démodé usar eufemismos. Quase nada era entendido ou recebido como ofensas ou crimes. Ah! as contradições. O que seria do Homo Erectus e do Homem de Neandertal se não fossem as contradições do Homo Sapiens? Elas deveriam fazer parte do processo evolutivo. No nosso caso, é involutivo.
Por outro lado, é gratificante ter vivido para provar do que a atualíssima família Jetson dos quadrinhos experimentou há mais de 60 anos. Melhor ainda foi conhecer a história de Péricles e seu Amigo da Onça, ter me transformado em Homo Celularis, apesar de não aceitar abandonar o mundo analógico, viver a evolução involutiva da espécie e, principalmente, curtir as novidades digitais, mesmo que não as utilize. São as nossas – ou minhas – contradições. Embora sejamos o que somos, queremos ser o que nunca poderemos ser. Longe do cabotinismo, prefiro ouvir meus discos na velha vitrola às new waves. Adoro o WhatsApp, mas admito que era muito bom esperar as respostas do Correio.
Parafraseando Ary Barroso na célebre e impagável Aquarela do Brasil, abri as cortinas do meu passado, fechei definitivamente a mala do poder e decidi experimentar todas as fontes murmurantes do cerrado. É aqui “onde eu mato minha sede”. Impensável alcançar a era do celular, de conversar online com o restante do mundo. O que não poderia imaginar é que, por conta dessa maravilha do mundo moderno, pudéssemos deixar de falar com quem estivesse à nossa frente, na mesma mesa de jantar ou dividindo o mesmo espaço de um consultório médico. Sentar-se em um desses locais significava conhecer gente e, na pior das hipóteses, saber boa parte da vida do interlocutor. Na melhor, poderia até começar um curto, médio ou longo relacionamento. Hoje, as pessoas sequer se cumprimentam. É cada uma na sua vibe.
Roto ou esfarrapado eram sinônimos de andrajosos, maltrapilhos, esmolambados, mulambentos e sujos. Hoje é moda. Vivemos uma época de bizarrices. Além de clean, uma calça, jaqueta ou camiseta rasgadas custam uma pequena fortuna. Nada contra, mas felizmente a preferência nacional ainda é o arrumadinho, especialmente entre aqueles que têm prazer de mostrar em público a segunda ou terceiras vias da identidade. Faço parte desse grupo, mas devo alertar que a segunda via não exprime qualquer mudança de sentido. Na acepção da palavra, quer dizer apenas uma questão de tempo ou ainda continuar na mão única.
Apesar de, graças a Deus, ter passado longe do vírus, aproveitei bem o mito da Covid-19 e o fim da gestão do fim do mundo. Mudei pouco os hábitos, mas revi conceitos, consolidei valores adquiridos, aprendi a valorizar pequenas e grandes coisas que avaliava desnecessárias, vivi momentos mais intimistas com minhas diferentes personalidades, perdoei os que insistem em não entender o que penso, amei ainda mais a família e os amigos, entendi com sobriedade os incompreendidos e, sobretudo, os entendidos, reconheci a importância do desconhecido, elogiei o belo, enalteci o semelhante e, principalmente, considerei como irmão o ignorado. Na prática, com o Brasil “renovado”, testei positivo para o amor, para a paz e para a alegria. Que bom que lá fora está chovendo. Será um temporal de amor no primeiro domingo de fevereiro? Como na minha juventude, devo aproveitá-lo para um bom passeio no parque. Fui!
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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras
