O contista recebeu um livro do romancista, gostou do que leu. Mandou um de seus livros para ele, que também gostou.
Começaram a trocar postagens, basicamente sobre literatura, e combinaram se encontrar. Num barzinho paulistano. Afinal, moravam relativamente perto, em São Paulo.
Depois da quarta cerveja, o papo sobre literatura ficou pessoal.
Contista: Sabe por que nossos livros não vendem? Não temos um lugar de fala adequado.
Romancista: ???
Contista, fazendo uma longa digressão: Li trechos do seu romance, e acho que somos tipo almas gêmeas literárias. Sexo, por exemplo, é importante pra você e nos seus textos, pra mim e nos meus contos também. Mas ambos tratamos do tema com delicadeza, com um certo pudor – isso, apesar de muitos de meus contos serem escrachados, gosto de chamá-los de pornochanchadas literárias. Nem você nem eu descrevemos uma transa em detalhes lúbricos, tipo historinhas de sacanagem. Por que essa delicadeza, esse pudor? De um lado, porque ambos escrevemos razoavelmente bem – não, chega de falsa modéstia, escrevemos bem pacas, nos negamos a resvalar para a pornografia; mas, basicamente, porque não nos sentimos muito à vontade em nosso lugar de fala.
Romancista, com um sorriso de quem estava começando a entender: Lugar de escrita…
Contista: Claro, de escrita. O que tem a ver com nossa trajetória. Somos ambos idosos, jornalista aposentado no meu caso, acho que no seu também… (o romancista concordou em silêncio). Podemos escrever bons textos sobre redações, paquera nas redações, perseguições de chefes estúpidos, passaralhos, situações ridículas, outras comoventes, conhecemos bem o pedaço (o romancista continuou concordando). Mas e o resto? Somos ambos brancos – a rigor, o que no Brasil Colônia os portugueses chamavam de brancos da terra, quer dizer, não tão brancos assim; somos ambos héteros, ambos de esquerda… Temos consciência de nossa posição privilegiada em uma sociedade desigual e racista. E tem mais, nasci em uma família de classe média relativamente próspera, pai e avô advogados. Formei-me em Direito, embora jamais tenha trabalhado na profissão…
Romancista, cortando o contista palavroso: no meu caso é quase a mesma coisa, pai e avô médicos, fiz até o quarto ano de Medicina, antes de passar pro jornalismo.
Contista, com o freio nos dentes: É isso. Não podemos ambientar nossos textos na periferia, ou de como nossas mães enfrentaram a pobreza e a fome para nos criar. Não podemos falar de racismo, não sofremos na pele nada disso. Então nossos livros são gostosos de ler mas descartáveis. E um dos motivos por que vendem pouco.
Pediram a quinta cerveja e ficaram bebendo em silêncio.
Contista, depois do último gole, retomando o fio da meada: Agora vou abrir um aspecto delicado, pessoal, e depois fazer uma pergunta. Espero que você responda com sinceridade, é importante para o que vem a seguir. Tenho câncer de pulmão, dois meses de previsão de vida. E você?
Romancista, depois de engolir em seco, que a cerveja em seu copo tinha acabado: Câncer de estômago, inoperável. Três meses de vida.
Contista: É, percebi que você não está nada bem. E como somos almas gêmeas literárias (o romancista sorriu), perigávamos partir juntos, em datas bem próximas. Quer saber, não tenho medo da morte, tenho medo da dor (o romancista concordou enfaticamente). E, como quem descortina uma epifania: Sei como assegurar, se não a imortalidade literária, pelo menos a consagração de nossos livros mais importantes.
A ideia era se matarem um ao outro, cada um com seu livro. A morte dos autores traria os holofotes para as obras.
– A morbidez dos leitores fará o resto – concluiu. – Vão chamar de romance da morte, contos macabros, dizer que duelamos pela primazia de nossos respectivos textos, nossos diferentes gêneros literários, coisas assim. Claro, é conveniente preparar o terreno, avisar alguns amigos de confiança para que divulguem a morte do autor e as circunstâncias em suas redes sociais…
Bêbado de tanta cerveja, o romancista achou a ideia genial. E, quando passou o porre, continuou a aceitá-la. A morte, afinal, se aproximava. Quem sabe trouxesse com ela a fama literária?
Na noite combinada, encontraram-se em um parque deserto. Cada um com um revólver e seu livro predileto. Ficaram bem perto um do outro, não era um duelo, antes um suicídio por interposta pessoa.
– No três, ok? Um, dois, três!
Ouviu-se um tiro. Um só.
– Traidor filho de uma égua!
O sobrevivente abaixou-se e pegou o livro manchado de sangue no chão.
– Eu é que não vou contribuir para a glória literária desse corno!
E foi embora, de volta para seu lugar de fala de branco idoso, hétero, jornalista aposentado, canceroso, quase suicida e, agora, assassino. À espera da polícia ou da morte, de quem chegasse antes.
