O dia 8 de março passa e, com ele, desaparece também a súbita atenção dedicada às mulheres. Durante algumas horas, discursos institucionais reconhecem desigualdades, empresas publicam homenagens e líderes políticos falam sobre empoderamento. No dia seguinte, a vida segue e as estruturas permanecem quase intactas.
O Dia Internacional da Mulher nasceu de mobilizações operárias, greves e reivindicações por direitos trabalhistas. Não era uma data para flores, mas para conflito político. Era o momento em que mulheres denunciavam jornadas exaustivas, salários menores e ausência de proteção social.
Hoje, muitas dessas desigualdades continuam presentes, ainda que sob novas formas. A socióloga Arlie Russell Hochschild descreveu esse fenômeno ao analisar o que chamou de “segunda jornada”: mesmo quando conquistam espaço no mercado de trabalho, mulheres continuam responsáveis pela maior parte do trabalho doméstico e do cuidado.
Depois do 8 de março, o silêncio retorna. Mas o trabalho invisível permanece. E talvez seja justamente nesse cotidiano aparentemente banal que se esconda a dimensão mais persistente da desigualdade.
