Você partiu e eu nem pude me despedir,
Em um tempo cruel e sombrio,
Em que o mundo contava ausências,
Em meros quadros estatísticos;
Mas você nunca foi um número,
Você era cheiro de biscoito de polvilho,
Era a casa respirando calma,
Era o meu nome dito com a alma;
Dizem que foi um vírus,
Eu digo que foi silêncio demais,
Em um quarto onde eu não pude estar,
Foi a distância forçada,
Foi a despedida sem sequer velar.
E há desertos,
Que nascem dentro da gente,
Quando não se ouve mais voz de mãe,
Quando só o que resta é o vácuo do ausente;
Eu ainda converso com você,
No intervalo das noites insones,
Quando a casa dorme,
E a saudade acorda e grita seu nome…
Pergunto se está aquecida,
Se encontrou paz,
Se o céu tem o mesmo tom do seu olhar,
Quando sorria e dizia me amar…
Às vezes sinto,
Como se o infinito fosse pequeno,
Perto do que ficou aqui,
Essa imensidão que está me corroendo;
Mas também sinto algo estranho:
Uma proximidade invisível,
Com esse amor indestrutível,
Como se a eternidade que nos separa,
Não fosse distância, mas apenas uma prorrogação;
Você está nas fotos,
E também na minha memória,
Você está na força que me mantém de pé,
Quando tudo quer me derrubar;
Está na coragem que eu não sabia que tinha.
Está no meu caminhar…
E se há um lugar
onde o amor não adoece,
eu sei que você está lá,
Inteira, livre da dor,
Que ficou no seu lugar…
Mãe,
O meu mundo perdeu você,
Mas você mora na minha vida,
Na parte de mim que ainda acredita,
Que o amor não termina,
Apenas muda de endereço.
