Era um típico sábado de verão, manhã ensolarada em que o espesso arvoredo protegia os abastados fregueses da pequena feira e sob uma atmosfera de contagiante alegria confraternizavam como os antigos aldeões. Coisa alguma distante do cenário comum de um bairro da cidade do Rio de Janeiro, ou de qualquer outra metrópole, que não fosse o aglomerado feliz em torno das barracas para o rotineiro abastecimento familiar da semana vindoura.
Enquanto refletia diante de frutas e hortaliças, escolhendo o que melhor conviesse, visando o preparo do almoço sabatino, a cargo de minha amada Chef de Cuisine, deparei-me com um homem que, embora transitando na praça e envolto no pequeno alvoroço dos fregueses em busca de frutas e hortaliças, das barracas passou ao longe, permitindo-se avizinhar apenas das lixeiras dentro das quais só havia o que obviamente se descartava, ingredientes apropriados para o alcance do desalento e da indignidade.
Lá estava o simplório indivíduo, igual a tantos outros que se tornaram lamentavelmente comuns na cidade do Rio de Janeiro, sem distinção geográfica de qualquer espécie: zona sul ou zona norte, e agora sudoeste. A miséria não conhece fronteiras, é reconhecidamente democrática, irônica, iníqua e generosa, agraciando os infelizes com a dose máxima da indignidade; não permite o sonho ou mesmo a esperança, apenas constrange, mantendo a cabeça baixa dos desvalidos, mancomunada com a tristeza, não lhes permitindo sequer soerguê-la para rogar aos céus a infinita misericórdia divina.
E assim deparei-me com aquele homem, revirando a lixeira, à procura de “recicláveis”, segundo a nova língua portuguesa forjada no politicamente correto; em verdade, estava à procura do lixo servível, latas e papelão, cuja parca receita que porventura auferisse pudesse converter em provisório alimento, suficiente para não acoimá-lo de morte por inanição naquele dia.
Deteve-se por um momento, levando uma das mãos à cabeça, como se fosse um gesto de desespero ou de quem procura uma direção para a sua jornada urbana, entre ruas, praças, calçadas e avenidas, vez que os citadinos encastelados, ornados com a bem-aventurança, optam por não enxergá-lo, até aqueles que se aglomeravam nas barracas, comportando-se como aldeões, em que o animus de solidariedade e vizinhança manifestava-se apenas entre os iguais, espectadores das frutas e hortaliças, adoradores da magia culinária, que saciam a fome de modo lúdico e imediato, sem o espectro da incerteza e da aventura.
Pobre homem, carregando o fardo dos “recicláveis” que naquela manhã conseguiu juntar, esgueirando-se entre as trincheiras da metrópole, o infortúnio da miséria não lhe retira a coragem para dar continuidade à luta diária contra a indignidade, embora acidentalmente o desalento venha golpeá-lo, fazendo com que leve uma das mãos à soerguida cabeça, quem sabe balbuciando uma prece, em busca de redenção.
Certo que a nossa realidade citadina não me permite compará-lo com o “Apanhador no campo de centeio” (The Catcher in the Rye), título da clássica obra de autoria de J. D. Salinger, mas tão somente enxergá-lo sem qualquer glamour que a imaginação pudesse envolver e inspirar-me a descrevê-lo, de modo a compará-lo com o personagem do livro.
Assim, procurei descrever um apanhador no campo do desalento e da desesperança, mas que lutava corajosamente contra a fome, a indiferença e a implacável indignidade.
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Durval Pimenta de Castro Filho, poeta, escritor, é professor universitário e advogado no Rio de Janeiro.
