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Dessa vez não podia culpar sua imaginação

Joel produzia contos, muitos deles com uma mescla de erotismo e humor. Certa ocasião, ia escrever que uma personagem dava mais que chuchu na cerca – uma de suas expressões favoritas –, quando escutou alguém dizer baixinho:

– Da pá virada, escreve que ela era da pá virada!

Ele levou um susto. Mas logo deu de ombros. Imaginação à solta. E sorriu com saudade, era uma das expressões favoritas de sua avó.

Foi em frente, e chegou no pedaço em que a moça mais que generosa não queria fazer com o protagonista. Finalmente ela cede, e ele diz a frase surpreendente, que termina o conto:

– Não, querida, você fez doce, eu sou diabético!

Já tinha digitado o “Não, querida”, quando ouviu outra voz:

– Você fez chiquê! Escreve você fez chiquê, porra!

Dessa vez não podia culpar sua imaginação, ela não tinha o hábito de xingá-lo.

– Quem está aí?

– Somos nós – e duas palavras se materializaram. Uma estava de luvas, chapéu com véu, trajes pretenciosos, exageradamente elegantes; a outra vestia uma saia curtíssima e uma blusa baratinha com um decote pra lá de escandaloso. “A da falsa elegância é a do chiquê, a vulgarzinha é a da pá virada”, percebeu. E atribuiu-lhes esses termos, como se fossem nomes próprios.

– Palavras sempre me visitam, do contrário eu não escreveria. Mas é a primeira vez que interferem no texto.

– É o jeito – disse Chiquê, com um suspiro. – Os escritores estão esquecendo das palavras e expressões mais antigas, tão gostosas, tão expressivas …É só cara, véi, mano, e palavrão, bota palavrão nisso! Enquanto nós, a esmagadora maioria das palavras da língua portuguesa, ficamos chuchando o dedo, cobertas de teias de aranha…

– Da língua portuguesa? Aff – zombou Pá virada. – Você é francesa, desembarcou no Brasil outro dia, com as polacas. Todas da pá virada que nem eu…

Chiquê preferiu não responder e continuou.

– Viemos pedir que você use palavras mais antigas em seus textos e convença seus colegas a fazer o mesmo. Procuramos você porque seu vocabulário não é tão jovem assim (pudera, Joel tinha mais de 70 anos). Vai ser melhor pra nós e pra você. Eles estão ameaçando atacar…

– Eles quem? – perguntou o contista. Mas já desconfiava da resposta.

– Os termos mais antigos da língua, surgidos com o reino de Portugal. Os mais novinhos dentre eles viajaram nas caravelas, são veteranos da epopeia das navegações lusas e da conquista das Índias.

– São uns brutos! – reforçou Pá virada – Estão acostumados a resolver as coisas à antiga portuguesa, que dizer, na porrada. Tenho calafrios só de pensar!

– E quando souberam que pretendíamos procurá-lo – acrescentou Chiquê – , os varões se armaram e decidiram atacar. Mas você está avisado, empregue palavras mais antigas em seus textos e tudo vai ficar bem.

Nesse momento, ouviram-se vozes masculinas zangadas, e três palavras se corporificaram. Uma tinha a forma de um homem enorme, de braços e pernas fortes, despido exceto por uma tanga; a outra, de um guerreiro medieval, armado da cabeça aos pés; e a terceira, de um homem aparentemente nu, todo coberto de pelos – um Tony Ramos elevado à enésima potência.

– São o membrudo, o façanhudo e o hirsuto – explicou chiquê, escondida atrás do contista.

– Pranchai o vilão! Abatei o labrego! – berrou o façanhudo. – E erguia com ambas as mãos o montante, preparando-se para golpear, como fizeram os heróis lusos diante dos castelhanos em 1385, na batalha de Aljubarrota.

O hirsuto nada dizia. Limitava-se a um sorriso idiota, com direito a baba, e a avançar de braços abertos, para envolver com seus pelos o frágil corpício de Joel. O mais ameaçador era o membrudo. Flexionava os braços musculosos, que lhe valeram a designação, sorria e o ameaçava com algo enorme, tirado da tanga e apontado para ele. Seu sorriso não era bobo como o do hirsuto, era obsceno. O contista tremeu nas bases.

Antes que os três o alcançassem, porém, conseguiu puxar da tomada o fio do computador, desligando-o. Com isso, as cinco palavras sumiram, voltando aos dicionários.

A partir desse dia, Joel faz questão de utilizar, em cada texto, pelo menos um termo das antigas. Seus amigos riem, chamam-no de velho, mas no fundo invejam a riqueza de seu vocabulário. Mal sabem eles que não se trata de pedantismo, nem de mostra de erudição, mas de uma pitada de prudência, inspirada por um sentimento bem brasileiro: o bom e velho cagaço.

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