Início da guerra de Troia. Os barcos aqueus atracavam no litoral da Ásia, enquanto, lá de cima, os deuses do Olimpo se preparavam para assistir de camarote à carnificina que logo iria começar.
Os ânimos esquentavam no panteão helênico, pois a tigrada estava dividida. Várias divindades apoiavam a cidadela da Ásia Menor. A começar por Afrodite: ela recebera do troiano Páris o galardão de mais linda deusa, e fizera a bela Helena, esposa do rei espartano Menelau, se apaixonar pelo rapaz e fugir com ele, o que provocou o chabu, em bom carioquês, abriu o B.O..
A deusa do amor e da sedução não era a única. Apolo, padroeiro de Troia, e sua irmã gêmea Ártemis também defendiam os atacados. Ares, o deus da guerra, fora convencido pelos encantos (ô bicho pra ter nome) de Afrodite a se aliar aos asiáticos. E o próprio Zeus, embora se esforçasse por aparentar neutralidade, simpatizava com a causa do rei Príamo, em breve atacado pelos aqueus.
A maioria das divindades, porém, ficou ao lado dos helenos. A começar por Hera, primeira–dama do Olimpo, provavelmente de pura birra, para se vingar de Zeus, seu esposo mulherengo. Além do mais, o fiodeumaegua do Páris a rejeitara no concurso de beleza das deusas…
O mesmo motivo estava por trás da hostilidade de Atena aos troianos. A deusa da sabedoria e da estratégia oferecera a Páris a vitória militar se ele a escolhesse no concurso da mais bela imortal, mas ele preferiu coroar Afrodite, e aí já viu, deusa despeitada é fogo.
Além das duas más perdedoras, os aqueus tinham o apoio de Poseidon, deus dos mares; de Hefesto, deus do fogo e dos metais, esposo da dadivosa Afrodite; e de Hermes, o mensageiro dos deuses. E também da ninfa marinha Tétis, que havia criado Hefesto e era mãe do herói helênico Aquiles.
As paixões se inflamavam, os dois lados já trocavam palavrões cabeludos (não tenho como reproduzi-los, palavrões em grego são grego pra mim), quando Afrodite, ainda mais bela devido ao furor, exclamou:
– Dou pro primeiro corno pró-aqueu que trocar de lado!
Poseidon e Hermes se entreolharam. A proposta era tentadora, mas aceitá-la trazia o risco de enfrentar a ira de Hefesto, sempre guampeado, mas, afinal, marido da generosa do Olimpo; e, ainda pior, de Ares, o amante oficial. Com um suspiro de pesar, os dois continuaram a apoiar os helenos.
Mas de pouco adiantou, o violento Ares entrou no rebu. Enfurecido, baixou a porrada nos machos pró-aqueus. Foi contido, a custo, por Atena, também associada à guerra.
Antes que o ícor, o sangue dourado dos deuses, escorresse no Olimpo, Zeus tratou de apaziguar a moçada:
– Parem com isso! Conheço meu gado, sei que cada lado vai apoiar os seus protegidos, sejam os aqueus, sejam os troianos. E terão muitas oportunidades para isso, que a guerra vai ser longa… Mas precisamos conservar um mínimo de harmonia aqui em cima. Além do mais, o resultado do confronto já é conhecido: os aqueus vencem bem no finalzinho.
– Pai, consultou o meu Oráculo de Delfos? – perguntou Apolo, patrono do mais famoso oráculo da Antiguidade. – Dei instruções para que as pitonisas não respondessem a essa pergunta… – concluiu, decepcionado.
– Filho, não precisa castigar suas servidoras – respondeu o deus dos deuses. – Não, não consultei o oráculo, vi nesse aparelhinho que trouxe do futuro, coisa do primeiro mundo!
E mostrou aos botocudos um smartphone de 5G, a quinta geração da rede móvel, de internet muito mais rápida. Claro, não havia internet nem eletricidade para recarregá-lo, mas isso não era problema para o senhor do raio, que, afinal, é uma descarga elétrica.
