Entre a memória de uma trabalhadora e os debates globais sobre clima, uma homenagem às mulheres que sustentam o futuro todos os dias.
Quando a COP30 terminou, em Belém, ficaram muitas palavras no ar.
Falou-se de justiça climática, de transição justa, de um novo ciclo de prosperidade. Durante dias, líderes debateram saúde, trabalho, educação, cultura e direitos humanos. Discutiram metas, fundos e responsabilidades diante da crise climática.
Mas, enquanto eu acompanhava aquelas conversas, uma lembrança antiga me voltou à memória. Procurei em meu blog e encontrei um texto de 2011. Falava de uma mulher de Brasília chamada Gilvany.
Todas as manhãs, ela organizava sua pequena mesa de café da manhã à sombra de um jenipapeiro.
Toalha branca, jaleco impecável, pães de queijo ainda quentes, garrafas de suco. Tinha até suco de jenipapo.
Enquanto a cidade despertava devagar, ela já estava lá, sob o jenipapeiro, trabalhando.
A árvore lhe oferecia sombra. E, em troca, Gilvany recolhia os frutos que caíam no chão como quem aceita um presente de uma pessoa amiga.
Ela nunca esteve numa conferência internacional. Mas sempre esteve no centro daquilo que sustenta a vida, como milhões de mulheres brasileiras.
Mulheres que acordam antes da luz do dia. Mulheres que cozinham, limpam, plantam, vendem, cuidam de filhos, de pais, de vizinhos. Mulheres que sustentam famílias inteiras e mantêm comunidades de pé.
Mulheres que vivem a dupla jornada como parte do cotidiano.
Durante a COP30 falou-se muito em justiça climática. E com razão. A crise do clima também é social, econômica e profundamente desigual. Mas essa justiça começa muito antes das conferências. Começa nas feiras comunitárias, na agricultura familiar, nas cozinhas simples que alimentam bairros inteiros. Começa nas mãos que cuidam da terra, das sementes e da comida que chega em nossas mesas.
Muitas dessas mãos são de mulheres. Mulheres que raramente aparecem em relatórios ou fotografias oficiais.
Neste Dia Internacional da Mulher, talvez o mundo precise aprender algo essencial. Quem sabe, aprender a olhar melhor para suas Gilvanys.
Porque o futuro que tantas conferências tentam planejar já está sendo construído por elas. Todos os dias. Em silêncio e, às vezes, à sombra de um jenipapeiro.
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Luísa Nogueira é formada em Letras e mestra em Linguística Aplicada. Mantém, desde 2008, o blog Multivias
@luisanogueiraautora
