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Dilermando, o colecionador

Dilermando, embora não fosse o mais mal-arranjado da cidade, também não era exatamente aquele cara que, quando estava na linha de montagem, pouco antes de ser enviado para encarar a vida aqui na terra, tenha entrado mais de uma vez na fila da beleza.

Era o tipo de sujeito nem alto, nem baixo; nem atlético e nem franzino; nem bonito, nem feio. Ou seja, nada demais. Mas um dom em grande quantidade, certamente, o homem lá de cima tinha dado a ele; o dom da conversa. Não havia mulher que resistisse ao poder de sua lábia já nos primeiros cinco minutos e o nosso personagem era o sonho de consumo de toda moça, não só daquele município, como das adjacências; e alvo da inveja de todos os marmanjos da região. Vai daí que, ao longo de sua vida “útil”, se é que me entendem, aonde fosse, estava cercado de fãs do sexo oposto.

Na escola, desde os primeiros anos do ginásio, as meninas já se digladiavam para ver quem ficava com ele, que não se fazia de rogado, ficava, se não com todas, como o maior número possível delas. Ǫuando começou a trabalhar, não foi diferente, jamais levou a sério o conhecido preceito sobre “o pão e a carne”. Nas baladas, na academia de ginástica, no supermercado, nas lojas e até nas ruas. Bastava o cruzamento de um olhar e lá ia Dilermando com seu proverbial palavreado abordar a jovem.

Marias, Rosanas, Divas, Tânias, Deusdedits, Angélicas, Paulas, Reginas, Terezas, Teresas, Janainas, Andreas, Andreias, Vânias etc., etc., etc… O rapaz não perdoava ninguém. O tipo de mulher que lhe apetecia era “qualquer um”. E mais, não era do seu feitio desprezar as ex-namoradas, qualquer que fosse a razão do desenlace; ao contrário, caso houvesse um reencontro fortuito, se mostrava gentil como sempre e dizia que continuava amando a todas e até sentia saudade, não raro a história reatava.

Certo dia, não se sabe bem por que, possivelmente por sentir os anos passarem e continuar solteiro, pois no fundo pensava em constituir uma família, acordou com uma estranha necessidade: precisava saber exatamente com quantas já havia se relacionado para fazer um balanço de sua vida, já que esse era um traço essencial de sua identidade.

Tinha certeza de que o número ultrapassava 100 com larga margem, talvez até passasse de 200; a 300 certamente não chegaria, mas o fato é que precisava saber. Começou então a tentar puxar pela memória cada uma delas: Cristinas, Lurdinhas, Veras, Celestes, Júlias, Vanessas, Flavinhas etc. etc. etc. Contudo, toda vez, quando a lista chegava a um determinado ponto, perdia a conta e começava a misturar nomes, lugares, datas e situações.

Tentou diversas formas de classificá-las, por cor de pele, por raça, idade, pela cor dos cabelos; em ordem cronológica, e nada. Sempre acabava se confundindo e não chegava a nenhuma conclusão. Até que lhe ocorreu colocar os nomes em ordem alfabética: Abigais, Alices, Amandas, Anas…; Bartiras, Beatrizes, Belas, Brunas…; Carlas, Clarices, Corinas…; …Fátimas, Felícias, Fenandas …. Helenas … Júlias…. Marisas … Nancis… Odetes … … …. Tatianas … Valkirias… Valquirias… Walquírias… Yasmins… Zenaides, foi o que, finalmente, funcionou, contou e recontou. Não havia mais dúvida, foram 287.

Observando com maior atenção, no entanto, algo lhe causou profunda estranheza. Ao conferir e reconferir a lista, percebeu que havia garotas cujos nomes começavam com todas as letras do alfabeto, exceto com uma, o “G”. Nenhuma Gleide, Geiza, Glória, Gina ou Gorete … e, por mais sem importância que isso pudesse parecer, o deixou profundamente cismado, ou melhor, obcecado. A ponto de colocar na cabeça a necessidade de encontrar uma mulher cujo nome começasse com “G”, nem que fosse a última de sua vida ou, talvez, a mulher de sua vida.

Dilermando que já beirava os 40, mas, como se diz, ainda tinha lenha para queimar, mudou de comportamento, procurava freneticamente por uma Gina, Gilmara, Gildete, Gabriela, Grace, Glória etc.. Por mais bonita e sensual que fosse a moça, se o nome não começasse por “G”, na mesma hora perdia o interesse e dava um jeito de se esquivar dela.

De tanto procurar, um dia se deparou com a Gislaine. Foi paixão à primeira vista. Ficou absolutamente encantado pela senhorita. Não era feia, mas estava longe de ser a candidata imbatível do concurso de Miss Universo daquele ano. Mas o amor é assim mesmo, o coração de Dilermando havia sido conquistado de forma indelével. Passou a namorar a garota e não tinha mais olhos para nenhuma outra.

A paixão era tanta que logo quis desposá-la. Mas, ironia das ironias, ele que tanto dominava a arte da conquista, sentia-se inseguro de a abordar com um pedido de casamento, talvez por medo de uma suposta rejeição, quem diria, logo ele. Pensou, pensou e acabou por pensar em enviar a ela um buquê de flores com um bilhete contendo a proposta de levá-la ao altar e assim o fez:

– Minha querida Gislaine, ofereço-lhe essas modestas flores juntamente com minha declaração de eterno amor e meu desejo incontido de que venha ser minha companheira para a vida toda e que possamos construir uma linda família. Ficarei aguardando ansioso por sua resposta e não sei o que será de mim, caso seja negativa.

Passados alguns dias, recebeu, também por meio de uma correspondência, a tão aguardada resposta:

– Meu amado Dilermando. Obrigada pelas lindas flores. É claro que aceito sua proposta, pois também o amo intensamente. Mas não gostaria de manter nenhum segredo entre nós, pois há um guardado comigo desde sempre, que embora possa parecer irrelevante, sempre foi motivo de vergonha para mim e, como iremos nos casar, preciso lhe revelar: quando nasci, o escrevente do cartório, ao fazer minha certidão, não sei se por maldade ou ignorância, e meu pai, não sei se por ignorância ou distração, não percebeu, mas meu nome foi registrado como “Jislaine”, com “JOTA”.

Ao ler o bilhete, no mesmo instante o encanto se desfez. Era como se ele acordasse de um sonho e não se tem notícia de como exatamente se saiu daquela embaraçosa situação, mas, obviamente, o casamento não se realizou.

No próximo mês, Dilermando irá completar 77 anos, continua solteiro, vive uma vida celibatária desde que passou por aquela decepção e continua sua busca obstinada por encontrar sua Gioconda, ou Giovana, ou Giselda etc. etc. etc… para, finalmente, completar sua coleção.

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