Notibras

Dizer que PT é de extrema esquerda é afrontar a inteligência do povo

Ontem foi divulgada uma pesquisa do Datafolha apontando que 74% dos brasileiros se identificam como petistas ou bolsonaristas. O instituto chamou esse fenômeno de “polarização”. É uma palavra que a gente usa o tempo todo, quase no automático, para descrever o clima de disputa permanente, o embate diário nas redes, nas famílias, nos bares. Mas talvez esteja na hora de parar um pouco e refletir sobre o que ela realmente significa.

Polarização, no sentido mais estrito, pressupõe a existência de dois polos opostos e extremos. E é aí que a coisa começa a ficar menos simples do que parece. No Brasil, existe sim uma extrema direita organizada, barulhenta e com pautas bastante conhecidas: um discurso punitivista na segurança pública, defesa da pena de morte, exaltação das armas, rejeição à imigração, desprezo por agendas ambientais e de direitos humanos, além de uma relação no mínimo problemática com a democracia.

Do outro lado, porém, não há um polo equivalente de extrema esquerda com peso real na sociedade. O Partido dos Trabalhadores, e o petismo com o qual cerca de 40% da população diz se identificar, não têm nada de radical no sentido clássico do termo. O PT é um partido socialdemocrata, de centro-esquerda, que opera dentro das regras do capitalismo, respeita a propriedade privada e atua por meio das instituições. Não há, em seu programa ou na prática de seus governos, defesa da abolição do capitalismo ou de qualquer ruptura revolucionária.

Quando se coloca tudo isso no mesmo pacote e se chama simplesmente de “polarização”, corre-se o risco de criar uma falsa simetria. Como se houvesse dois extremos equivalentes se enfrentando, quando na prática o que existe é uma extrema direita de um lado e, do outro, um campo democrático moderado, com propostas reformistas e institucionais.

Entender isso é fundamental. Palavras moldam percepções, e percepções moldam escolhas políticas. Se a gente não se dispõe a olhar para a realidade com um pouco mais de cuidado, acaba absorvendo discursos prontos e tomando como verdade absoluta narrativas que simplificam demais o debate. Saber nomear corretamente as coisas não é preciosismo: é um passo básico para não ser conduzido pelo ruído

Sair da versão mobile