Imagine um homem comum, daqueles que acordam com o sol nascendo no horizonte simples de uma vila qualquer.
Ele sonha grande, trabalha incansavelmente, e um dia o destino, ou a astúcia o eleva ao topo.
O poder chega como um manto reluzente, tecendo em torno dele uma aura de invencibilidade. Ele se torna o centro do mundo: decisões que movem fortunas, palavras que calam multidões, olhares que dobram vontades.
“Finalmente”, pensa ele, “sou o que sempre mereci ser”.
Mas o poder não é um presente; é um veneno lento, que se infiltra nas veias da alma. No início, é puro êxtase.
O homem constrói impérios com as mãos que outrora carregavam baldes d’água. Seus dias se enchem de aplausos, de bajuladores que o chamam de visionário.
Ele esmaga obstáculos como se fossem folhas secas: rivais caem, fortunas se acumulam, e o espelho reflete um deus mortal.
Lembra-se de reis antigos, como Nabucodonosor, que se vangloriava de Babilônia e acabou pastando como animal no campo, lição bíblica que o homem moderno ignora, achando-se imune.
Com o tempo, porém, o veneno revela suas presas. A solidão rói primeiro. Amigos de verdade evaporam, substituídos por cortesãos de língua afiada, cujos elogios são lâminas disfarçadas.
A família, esse porto seguro de outrora, vira refém: o filho questiona, a esposa silencia, o pai lamenta em segredo.
O poder exige vigilância eterna. “Quem trama nas sombras?”, o homem se pergunta à meia-noite, insone em lençóis de seda. Desconfia do pão que come, do conselho que ouve, até do próprio reflexo.
Paranoia floresce como erva daninha: ele isola-se no palácio de suas conquistas, onde o eco de risos falsos é o único som companheiro.
Pior ainda é a corrosão moral. O poder dissolve escrúpulos como ácido. O que era certo torna-se flexível: uma mentira para manter o trono, uma injustiça para calar dissidentes, um roubo disfarçado de astúcia.
O homem olha para trás e vê o rastro de destroços, vidas quebradas, sonhos pisoteados, uma nação curvada, mas faminta.
Quantos líderes caíram assim? De Césares romanos a ditadores modernos, o padrão se repete: o ascenso é vertiginoso, a queda, inevitável e solitária.
Aqui ecoa a voz sábia de Cecília Meireles, em “Motivo”: “Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa”. Cecília nos lembra que o verdadeiro fulgor não está no poder efêmero, mas no instante humilde, na vida plena que não precisa de coroas para brilhar. O poder corrompe quando nos afasta dessa essência; mas e se o usássemos como ponte para o bem maior?
Eis a esperança que redime: a fé como antídoto soberano. Quando o veneno aperta, há uma luz que dissolve as sombras a entrega a Algo maior que tronos e ouro. Líderes fiéis sabem disso: erguem-se não para dominar, mas para servir, guiados pela graça divina. O poder, nessas mãos, multiplica pães em vez de devorar almas; constrói pontes onde antes havia abismos. A fé sussurra: “Não temas o veneno, pois Eu sou a cura”. Ela transforma o egoísta em pastor, o tirano em humilde, o vazio em plenitude.
No fim, o homem não precisa descer derrotado da montanha. Com fé, ele a transforma em farol: doa o que recebeu, abraça os caídos, e encontra na simplicidade o reino verdadeiro. O poder corrompe o orgulhoso, mas santifica o fiel. Cabe a nós escolher: veneno ou luz? A coroa enferrujada pode brilhar de novo, polida pela mão de Deus.
