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Dona Zilá era o tipo de mestra que fazia tudo por seus alunos

Dona Zilá era professora. Dava aulas para as turmas do Ensino Fundamental 1, dizia sempre que ficava encantada ao ver as crianças se abrindo para o mundo, descobrindo e afirmando sua individualidade. Em resumo, era o tipo de mestra que fazia tudo por seus alunos.

Ela gostava especialmente de ensinar garotas e garotos da 5ª série, pré-adolescentes, com idade aproximada de 10/11 anos. Não se cansava de repetir:

– Nessa fase, eles ainda são como barro. Flexíveis, maleáveis. Mas não ficarão assim por muito tempo. É preciso moldá-los do jeito certo, para que enfrentem os desafios da adolescência sem se perder no caminho.

Certo dia, dona Zilá ouviu risinhos excitados vindos do fundo da sala, onde costumavam sentar os alunos mais velhos e mais problemáticos. Com seus ouvidos aguçados – exigência profissional –, escutou um dos meninos perguntar a Laurinho, o rei das confusões:

– Cê vai virar mesmo?

– Vô sim. E depois vô soltar os cachorros entre os babaquinhas da primeira fila.

– E dona Zilá?

– Ah, a velha vai se mijar de medo!

Depois dessas palavras, Laurinho ficou em silêncio, pareceu mergulhar dentro de si mesmo. Pouco a pouco sua fisionomia mudou, tornou-se quase bestial. Seus braços de garoto cobriram-se de pelos e suas unhas tornaram-se garras aduncas. Parecia um filhote de lobo. Ou de lobisomem.

Sentada em sua mesa, na frente da turma, dona Zilá também foi se transformando. Seu rosto e seu corpo tornaram-se semelhantes aos de uma ursa de presas e garras ferozes. Sua metamorfose foi bem mais rápida que a de Laurinho; este recebeu uma mensagem telepática, que por pouco não o jogou por terra:

– Pare! Volte ao normal, ou vai ser dilacerado!!!

– Dona Zilá! – exclamou, entre incrédulo e apavorado, o filhote.

– Não me provoque, lobinho – rosnou telepaticamente a ursa/a mestra.

Só que Laurinho percebeu, nas palavras rosnadas, uma pitada de carinho. Enquanto voltava à forma humana, perguntou, bem menos assustado:

– E os outros, fessora? Eles viram nossa transformação…

– Deixa comigo.

Dona Zilá também se transformou, mas não em uma pacata professora do Fundamental 1. A ursa deu lugar a uma velha enrugada, com as mãos cobertas de talismãs e um grande chapéu preto de bruxa. Porque, evidentemente era uma bruxa. Ela recitou alguns encantamentos e os rostos de todos os alunos, exceto o de Laurinho, assumiram uma placidez bovina.

– Pronto. Todo mundo já esqueceu do que viu – comentou, satisfeita, a bruxa/ursa/professora. – No máximo, vão achar que foi tudo imaginação.

Laurinho engoliu em seco e ficou quietinho pelo resto da aula.

“O que não faço por meus alunos?”, pensou ela, com um suspiro, enquanto a bruxa se desmaterializava, sendo substituída pela figura familiar de dona Zilá.

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