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Doutora Yasmin só para os pets, não para os amigos cachorros do avô

Há momentos em que a vida começa de novo sem que alguém perceba. Não há fogos, não há discursos, não há corte de fita. Há apenas um portão que se abre, um corredor desconhecido e um coração que bate mais rápido que o normal.

O primeiro dia de aula de Yasmin começou assim; foi um misto de nervosismo escondido atrás de um sorriso que tentava ser adulto. A futura veterinária – ela gosta de dizer isso com firmeza, como quem já assinou o próprio destino – acordou antes do despertador.

O Sol ainda bocejava quando Yaya levantou-se, ensaiando mentalmente como seria atravessar aquela fronteira invisível entre o sonho e a profissão. Depois de um gole apressado de café e um suspiro de coragem, havia nela a apreensão silenciosa.

“Será que vou dar conta?”, perguntava-se. Dará. Com certeza!

Toda estreia carrega essa pergunta pequena e insistente. O mundo parece grande demais, os corredores longos demais, os professores sérios demais. Mas também há a centelha da alegria. É a chama teimosa que se acende quando a gente percebe que está exatamente onde queria estar.

Yasmin caminhou pelo campus como quem pisa em território sagrado. Não era apenas o início de um curso, mas o primeiro passo para um futuro que ela já imaginava em detalhes: jaleco branco, mãos firmes e delicadas, olhos atentos aos sinais que só os animais sabem dar. Ela quer cuidar dos pets dos parentes e amigos, missão declarada em tom quase solene, mas, de outro lado, quer distância dos amigos cachorros do avô. Atenção especial apenas aos companheiros de quatro patas que sempre a receberam com festa, como se ela já fosse, de alguma forma, a doutora da família.

No intervalo entre uma apresentação e outra, surgiram os primeiros sorrisos cúmplices. Outros calouros igualmente nervosos, igualmente esperançosos. A apreensão deu lugar à descoberta. Afinal,  ninguém ali sabia tudo. Todos estavam começando. E isso, de repente, confortou Yasmin.

Há algo de profundamente bonito no instante em que um jovem decide cuidar do futuro, ainda que seja associado à vida miúda e extraordinária dos animais. É um pacto silencioso com o afeto, porque, quem escolhe a veterinária, faz a opção, também, de compreender o silêncio de um olhar canino, o miado que pede socorro, o tremor quase imperceptível de uma pata com dor. É ciência, sim. Mas é, sobretudo, sensibilidade.

Ao fim do dia, o cansaço veio misturado à euforia. O medo inicial já não tinha o mesmo tamanho. No lugar dele, havia a convicção de que aquele era apenas o primeiro capítulo de uma história promissora. Uma saga feita de plantões, de estudos madrugada adentro, de lágrimas ocasionais e de muitas curas, muitas lambidas agradecidas, muitos rabos abanando como quem diz “valeu, doutora”.

Entre o nervosismo da manhã e a alegria do entardecer, Yasmin atravessou uma ponte invisível. Saiu de casa estudante; voltou aprendiz de um sonho. E, se o mundo permitir – e ele costuma abraçar aos que persistem -, daqui a alguns anos alguém abrirá a porta do consultório e ouvirá com confiança:

– Pode entrar. A doutora Yasmin já vai atender.

E tudo terá começado naquele primeiro dia, em que o medo e a esperança caminharam de mãos dadas. O avô talvez ainda não saiba, mas os amigos cachorros dele já têm futuro garantido – a castração. Para os pets de verdade, vai sobrar carinho.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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