Sempre gostou dos exageros de Van Gogh e, quando teve oportunidade, pediu para um pintor da Torre de TV, em Brasília, transformar uma fotografia antiga em uma pintura ao estilo do famoso pintor holandês. Ele, que driblava a vida sempre que a oportunidade dava as caras, se sentia feliz por poder fazer parte da vida daquelas duas mulheres, cujas qualidades, apesar de aparentemente dissonantes, as tornavam tão próximas, que não era difícil afirmar que algo muito mais forte as ligava, muito além do DNA.
Eram irmãs, filhas daquele sujeito, que poderia ser palhaço de circo ou caixa de um banco qualquer. Talvez trabalhasse em alguma repartição pública, enquanto desejava manhãs ensolaradas, mesmo por girassóis. Um tipo qualquer, cuja ausência de coragem era disfarçada com caretas, que faziam as garotas sorrirem.
Ana Maria, a mais velha, influenciada pelo avô, embrenhou-se entre as leis. Foi ser advogada, defender os direitos dos desvalidos, especialmente das mulheres, tão subjugadas por essa sociedade patriarcal, que a misoginia é tratada como parte da cultura. Parem de nos matar! Meu corpo, minhas regras! A minha roupa não é um convite! O pessoal é político!
Mariana, inverso da primogênita, foi ser cientista. O interesse por algas marinhas, não por acaso, era tentativa de salvar o planeta. Vida nos labirintos dos laboratórios, visão além do horizonte, que cega tanta gente, que aceita como verdade absoluta o que é dito em altares.
Cariocas, tão próximos, tão distantes. Enquanto a advogada vive na ponte aérea por tantos recantos, a pesquisadora segue mestranda na USP. Quando ao palhaço sem maquiagem, ele se traveste de contador de histórias em Porto Alegre. Os três não veem a hora de se encontrarem em Copacabana, num dia ensolarado, mesmo que pela arte de Vincent.
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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