Notibras

E não é que o Cadu Matos resolveu fazer dobradinha com a Denise Marchi?

Segue uma produção intertextual baseada no conto Susto na neblina, de Denise Marchi, publicado no Café Literário do Notibras.

Aurélio estava na fazenda dos avós, na cidadezinha do estado do Rio de Janeiro onde nascera. Saíra para encontrar alguns amigos de infância e beber umas cervejas, jogar conversa fora e encarar umas geladas era um dos poucos programas naquele fim de mundo.

Na mesa do bar, os amigos zoavam com ele:

– A cidade grande tá acabando contigo, aposto que nem caças mais…

Outro, compassivo, interveio:

-Tem remédio pra isso. Vamos caçar depois de amanhã, saímos às 4 da madrugada. Vens conosco?

Aurélio aceitou na hora. Gostava de caçar, na adolescência; ia ver se conservava a manha. Logo depois despediu-se, a fazenda dos avós ficava a quase uma hora de carro.

No meio do caminho, porém, o veículo morreu. Algum problema na parte elétrica, vai saber… Exasperado, empurrou o automóvel para o acostamento, fechou-o e começou a caminhar pela estrada deserta. A fazenda estava, no mínimo, a meia hora de marcha; andava devagar, com cuidado, a névoa pesada o impedia de ver um tronco no chão ou qualquer outro risco.

De repente, ouviu passos atrás de si. Voltou-se, não conseguiu ver ninguém devido à neblina. As passadas acompanhavam o seu ritmo, parando quando ele se detinha, soando, tuc tuc tuc, quando ele avançava.

De repente, Aurélio lembrou do belo conto Susto na neblina, de Denise Marchi, postado pelo Café Literário de Notibras. A autora descreve uma experiência similar à sua, quando atravessava uma ponte; e mais, como acabara de assistir ao filme A marvada carne, que tem entre seus personagens o Curupira, imaginou que era perseguida por essa entidade.

Denise conta, a seguir, que a névoa abriu de repente e ela avistou um senhorzinho. “Um pobre coitado, carregando seus cestos, indo montar a barraquinha na única feira livre da cidade. Madrugada de domingo. Ele ia vender… goiabas.

Meu coração deu um solavanco que achei que fosse parar de vez. O senhorzinho me encarou com a mesma cara de espanto. Naquela ponte, éramos dois assustados…”

Aurélio não acreditava no sobrenatural e não teria medo de um senhorzinho. Mas se fosse um homem mais jovem, com uma arma, decidido a assaltar o turista da cidade grande… Temeroso, passou a andar mais rápido.

Nesse momento, como acontecera no conto de Denise, a névoa se abriu e ele avistou não um senhorzinho e nem um assaltante, e sim o Curupira. Cabelos vermelhos, pés voltados para trás, tudo nos conformes. Aurélio ficou paralisado de pavor. O protetor das matas aproximou-se e falou:

– Gostavas de caçar, não é, vivente?

O vivente engoliu em seco, incapaz de responder.

– Viraste urbano, não caças mais… Foi o que te salvou. Teus amigos estão condenados, mas podes evitar o destino deles. Deixa os bichos em paz!

E se desmaterializou. Arrepiado de medo, Aurélio contatou pelo zap os amigos e deixou-lhes mensagens de que não ia caçar, nunca mais faria semelhante maldade contra os bichinhos (se é que uma onça ou um porco do mato merecem um diminutivo). E suplicou-lhes que fizessem o mesmo. Mas conhecia seu gado, não tinha esperanças de ser atendido.

No dia seguinte, depois de providenciar um reboque para o carro e deixá-lo em uma oficina (foi mesmo uma pane elétrica, o conserto foi rápido), deixou a cidadezinha como se estivesse sendo perseguido por mil demônios. Ou pelo Curupira.

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.O conto Susto na neblima, de Denise Marchi: .https://www.notibras.com/site/o-curupira-da-ponte-e-as-goiabas-da-feira/

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