Cheguei. Assim pensei no primeiro momento.
Caminhei pela trilha entre folhagens, avistando ao longo e abaixo o litoral de uma praia. Meu primeiro ímpeto foi correr para as águas cristalinas.
O céu, nu de nuvens, alinhava no horizonte com o mar cobalto espremido entre o anil e o turquesa; espumava o branco da paz.
Do alto, apressado, escorreguei entre folhas abandonadas ao chão fugindo dos gravetos pontiagudos que as solas dos pés sofriam – machucadas.
O alivio chegou quando pisei na areia fina e macia. Um carinho após o caminho geográfico.
Mergulhei impiedosamente, rasgando a água com meu corpo suado.
Deleitei-me ao aprofundar a cabeça, e dei de encontro com a cara zangada de um peixe assustado.
Sensação de plenitude, ignorando ser solitário.
De volta, ao piso macio e seco, percebi-me observado.
Um zumzumzum… Parecia voz inaudível à compreensão. Fui cercado por uma gente que como eu buscava entender a situação.
Em mim, as mãos ousavam tocar-me e, atônito percebi que a semelhança se distanciava ao vê-los virados de costas.
Sim. Eles tinham rabos. Eram pelo menos uns vinte.
Rodeavam inquietos a minha pessoa. Tínhamos o bom senso do respeito.
Somente os olhos intrigados me reviravam. Demorei a entender o bailado dos rabos.
Uns enrolados, outros entre as pernas, outros, abanavam nas costas de um lado ao outro.
Percebi em segundos, que sentiam falta do meu rabo. Como eu, o corpo, não mostrava diferença.
Percebi a comunicação primitiva ou linguagem que ainda não me fora apresentada
Sorri.
Uma bela jovem aproximou-se.
Logo fui disputado por outra menos bonita, porém forte e, pareceu-me a líder. Comecei a perceber que o rabo era a forma de comunicação.
A líder mantinha seu rabo erguido como um estandarte.
As mulheres abanavam o rabo quando curiosas, os homens mantinham seus rabos controlados: ora enrolados ora alongados. E, as crianças aparentemente medrosas guardavam entre as pernas – seus rabos.
Fui virado e revirado muitas vezes; buscavam em mim – o rabo. O fato de não tê-lo exigiu uma reunião do Conselho.
Fui mantido refém, todavia cuidado.
Virei um símbolo apurado e fui chamado de “O desrabado.”.
À noite recebi a visita de um grupo que ousou procurar em mim – o rabo.
Fiquei estarrecido por ser tratado como cobaia – vi-me rato em uma caixa – a ser observado.
Passada a semana, acostumei-me ao habitat.
Também deixei de ser atração por falta do rabo, e convivi na aldeia em paz.
Aprendi aos poucos a linguagem dos rabos, e assim até tentei criar para mim um enxerto com folhas de palmeira trançadas.
Pior o efeito do que a realidade.
Acabei por ser aceito sem o rabo e permitiram minha aculturação.
Na praia, enquanto eu nadava com os braços, eles usavam os rabos. Para subir nos coqueiros, eu usava as pernas trançadas e eles seguravam-se nos rabos. Lembrei-me dos macacos.
À noite, na reunião da aldeia, rabos batiam palmas, rabos se afetuavam, rabos se disputavam e até rabos copulavam. Tentei observar detalhes de como diferente de mim, os rabos fazendo amor.
Em um momento de tensão, um homem rabudo se aproximou. Com o rabo estendido ameaçou enrabar-me por sentir-se traído pela sua parceira, que de mim não despregava os olhos.
Diante daquela enorme espada de carne, vi-me impotente e desprotegido. Não fosse a líder e seu estandarte, eu não estaria aqui escrevendo.
E assim protegido, também passei outros perrengues. A própria líder interessada queria provar o diferente.
E, decidida, insatisfeita, confabulava um rabo a ser implantado em mim.
E foi exatamente naquele momento, que despertei do pesadelo que me manteve presente naquela ilha – diferente. – onde rabos falam por gente.
Pulei da cama, fugindo e instintivamente passei minha mão na bunda. Suspirei aliviado, porque não encontrei rabo nenhum.
