A captura de Nicolás Maduro e sua chegada a Nova York para responder à Justiça americana já não pertencem apenas ao noticiário. O episódio entra direto no campo da História, não pelo impacto da cena, mas pelo caminho que levou até ela. Nenhum regime cai de repente. Antes da queda, há sempre um processo longo de desgaste, isolamento e perda de sentido.
Há muito tempo o governo de Maduro deixou de ser apenas um projeto político contestado para se transformar num regime fechado. O controle do processo eleitoral, o uso do Judiciário como instrumento político, a repressão sistemática à oposição, a censura e a criminalização do dissenso não são episódios isolados. São parte de um modo de governar.
Regimes assim costumam recorrer a palavras cada vez maiores quando já não conseguem dialogar. Falam em soberania enquanto limitam liberdades básicas. Invocam o povo enquanto o afasta das decisões. Mantêm a linguagem democrática ao mesmo tempo em que esvaziam seus mecanismos. A História latino-americana conhece bem esse roteiro. E sabe onde ele costuma terminar.
Ao levar Maduro ao banco dos réus sob acusações de narcotráfico e crime organizado internacional, os Estados Unidos deram um passo que não pode ser tratado com naturalidade. A captura de um chefe de Estado em exercício por forças estrangeiras levanta questões sérias sobre limites, soberania e precedentes.
Isso precisa ser dito sem euforia e sem torcida. Questionar o método não significa aliviar o regime. Significa reconhecer que atalhos costumam parecer eficazes no começo, mas quase sempre cobram preço alto depois. A História está repleta desses exemplos.
Ao longo da última década, o debate internacional passou a tratar regimes autoritários de forma cada vez mais seletiva. Não é apenas o que fazem que importa, mas contra quem se colocam, que discurso adotam e quais alianças constroem. O método importa menos do que o alinhamento.
Cuba segue sendo o exemplo mais evidente. Décadas de partido único, ausência de eleições livres, repressão à dissidência e controle rígido da imprensa continuam sendo relativizados por muitos como consequência quase exclusiva de fatores externos. A ditadura vira contexto. A exceção vira hábito.
A Venezuela percorreu caminho parecido. Enquanto o discurso ainda soava social e popular, os sinais de fechamento institucional foram tratados com tolerância. Quando a repressão se tornou explícita, parte do debate preferiu deslocar a responsabilidade quase integralmente para sanções e pressões internacionais, como se o autoritarismo fosse um efeito colateral, não uma escolha consciente do poder.
Fora da América Latina, o padrão se repete. Regimes apresentados como peças de equilíbrio geopolítico encontraram zonas de silêncio e relativização. Em contraste, autoritarismos associados a campos opostos passaram a ser denunciados de forma imediata e correta. Os métodos são parecidos. O julgamento muda conforme a conveniência.
A História recente também registra, sem dificuldade, os limites das gestões que se seguem a intervenções externas. O Iraque é o exemplo mais conhecido. O regime caiu rápido. O dia seguinte revelou um vazio difícil de administrar. Vieram disputas internas, instabilidade prolongada e uma reconstrução que nunca se completou.
Isso não reabilita ditaduras. Apenas lembra que derrubar um regime é sempre mais simples do que organizar o que vem depois. E que soluções impostas de fora, mesmo quando bem-intencionadas, raramente constroem legitimidade duradoura.
Nada disso diminui a responsabilidade do regime de Maduro. Ditaduras não merecem complacência. Elas cobram caro de seus próprios povos e deixam marcas profundas, mesmo quando acabam.
O problema surge quando a crítica ao autoritarismo passa a funcionar por conveniência, ajustando princípios conforme a narrativa do momento. A História não faz esse tipo de concessão. Ela não escolhe ditaduras de estimação nem absolve regimes pelo discurso que adotaram. Com o tempo, o que permanece não são as intenções declaradas, mas os atos praticados e o preço pago pela sociedade.
Quando este episódio for analisado com mais distância, a prisão de Maduro será apenas um capítulo. O centro da narrativa será outro: o colapso de um regime que se afastou do povo, a dificuldade do mundo em lidar com ditaduras sem recorrer a atalhos e a constatação de que nem a repressão interna nem a força externa produzem, sozinhas, futuros estáveis. A História raramente se impressiona com gestos espetaculares. Ela presta atenção ao que vem depois.
