Daniela e Luiz Henrique se conheceram numa bacanal. Ele tinha 30 anos, era jornalista. Ela, 26 anos, atriz principiante.
Transaram e gostaram. Muito. Resolveram fazer de novo, o que fez levantar as sobrancelhas de alguns veteranos da sex party – e baixar, por decepção, outras partes do corpo dos atletas que exigiam uma sacanagem nos conformes. Num comportamento ainda mais imperdoável aos olhos dos habitués de festinhas, decidiram ir embora mais cedo, juntos. Afinal, cada um já tinha comido e dado para outros homens e mulheres, queriam o resto da noite só para eles, mereciam!
Foram para o apartamento de Daniela e retomaram o fuzuê. Foi uma delícia, o amor sem a participação de “grande elenco” permitiu aflorar uma ternura sensual apenas entrevista na orgia. Duas horas depois, confessaram um para o outro que jamais esqueceriam aquela noite.
Era mais que isso, mais gostoso e mais sério: os dois estavam se apaixonando a velas desfraldadas. Continuaram a namorar, a fazer loucuras na cama, sempre mesclando tesão e carinho. Dois meses depois, decidiram morar juntos. Mó burrada.
O problema é que Dani e Lu, como se chamavam, não tinham bons referenciais de como um casal deve proceder. Os dois eram filhos de pais separados, haviam visto suas mães renunciar ao sexo e ao prazer para criá-los. Só que o prazer tem razões que a própria razão desconhece, e às vezes se esconde para ressurgir, feroz, com armas e bagagens…
Havia uma agravante: as circunstâncias em que se conheceram. Jamais falavam sobre o assunto, mas sentiam que uma bacanal não era o terreno ideal para o florescimento de um grande amor. E era isso que eles estavam vivendo. Os dois, ela em especial, sentiam uma pitada de vergonha daquele início pecaminoso. Assim, assumiram o que imaginavam ser o comportamento de um casal – transas inesquecíveis entremeadas por largas áreas de silêncio. Com o tempo, essas áreas foram aumentando, se estendendo, até contaminar o desejo e o carinho que sentiam um pelo outro, mergulhando-os numa espiral descendente.
Dani percebeu primeiro a insatisfação e a monotonia. “Não tá legal, preciso dar pra outro cara…” E aceitou sair com um colega que sempre a paquerava. Era a outra face da moeda da monogamia. Só que a madame Bovary dos trópicos ficou decepcionada, foi horrível, Lu era um amante incomparavelmente melhor, ela torcia para que a coisa acabasse logo…
-Vamos sair outra vez? – perguntou, esperançoso, o ator-promovido-a-amante.
– Olha, depois a gente vê, tá? Qualquer dia a gente se esbarra.
Lu, por sua vez, não chegou a arranjar uma amante, mas percebeu com clareza que ele e Dani estavam reproduzindo padrões tradicionais e nada satisfatórios de um casal monogâmico; se nada mudasse, a ruptura seria uma questão de tempo. Então, certo dia, chamou-a para uma conversa séria.
– Olha, Dani, nossa relação tá ficando chata, sem sal…
– Sei disso, Lu. Até trepei com um carinha pra apimentar a coisa, mas não adiantou – confessou. – Só pensava em você, em como a gente fazia gostoso…
– Nem tentei transar com outra mulher, sabia que não seria bom.
De repente, seus olhos brilharam:
– E se a gente voltasse a entrar numa suruba? Afinal, nos conhecemos assim…
– Su…suruba? – perguntou Dani, escandalizada pelo uso da palavra proibida, que a fazia lembrar de coisas que não ornavam sua imagem de esposinha fiel (bem, fiel ma non troppo).
– Sim, suruba, festinha, sex party, bacanal, orgia, chame como você quiser. – Eu gostava de participar, e provavelmente você também. – Entusiasmado, tentou persuadir a relutante Dani. – Sabe por que eu gostava? Porque era inocente. Tô falando sério, Dani. Claro que havia muita sacanagem, barba, cabelo e bigode, mas era mais para a travessura, como uma brincadeira de criança, um pega-pega ou um esconde-esconde – Agora sério, Lu completou o pensamento. – Você e eu ganhamos algo muito valioso, o sexo com essa mescla deliciosa de tesão, carinho e ternura, mas perdemos algo também valioso, o sexo como diversão.
Dani ficou pensativa por algum tempo, depois falou.
– É, Lu, acho que você tem razão. Ou bacanalizamos ou vamos acabar nos perdendo, arranjando amantes muito piores que você ou eu e nos afastando para sempre – e continuou, os olhos brilhantes de entusiasmo. – Transar com você é como traçar um prato delicioso e refinado. Mas uma orgia, uma festinha, nos dá a chance de encarar um trivial variado. Bem trivial, mas muito variado! – concluiu, com um risinho malicioso.
