Notibras

Elucidágio

Inspirou profundamente o ar puro preenchendo de vida os pulmões e todo o seu ser.

Deixou-se encantar pela beleza em volta, a exuberância da natureza, o esplendor do céu e o calor delicioso da estrela fabulosa que beijava a sua pele.

Aos poucos, tomou consciência de todas aquelas sensações que lhe invadiam. Percebia agora tais fenômenos não apenas como mero intérprete de um papel que lhe fora atribuído, mas como expectador e mestre de si.

Esgueirou-se por um jardim repleto de árvores frutíferas de cores e aromas sem fim. Aproximou-se de uma delas e sentiu a fragrância de uma flor-de-laranjeira. Reagiu àquele cheiro cítrico com um espirro e observou um bicho pequeno de penas coloridas e asas frenéticas, que pareciam capturar e irradiar a luz em volta. Enquanto tateava as flores com o bico, causava a impressão de suspender seus movimentos no ar. “Beija-Flor”: pensou.

Aplaudiu o que viu.

Assustadas com o barulho do aplauso, um casal de garças que descansava num tronco próximo levantou voo sobre a sua cabeça.

Questionou-se: “Se sons tão grosseiros podem gerar criaturas tão fascinantes, o que surgiria de uma canção?”.

Seguiu o seu caminho cantarolando uma música que trazia em seu coração.

Avistou sentados abaixo de uma paineira ali em frente três figuras esbeltas de configuração anatômica muito parecida com a sua.

Animou-se: “Fascinante! Eis aí o fruto da minha canção!”

Aproximou-se. A figura que tinha pelos da cabeça compridos e de cor acaju empolgou-se ao ver o homem de aspecto curioso ali parado, e dirigiu-se a ele: “Quer se juntar a nós? Estamos aqui há horas a esperar por um amigo que jamais chegou e precisamos de mais um jogador para brincarmos de elucidágio.”

Seguiu a sua caminhada deixando intrigados os estranhos que ficaram para trás. Refletia: “O que diabos é um elucidágio?”

Sentou-se adiante e trouxe à memória a fala que ouvira em busca de pistas que indicassem de que se tratava o tal jogo.

Saltou em um pulo de compreensão ao se dar conta “estamos aqui há horas”.

Nenhuma daquelas formas de vida era obra sua. Ou melhor, eram obra dele, na mesma medida em que ele era obra deles e todos eram matéria que abrigava as centelhas da mesma Consciência.

Pela primeira vez desde que aterrissara, teve consciência do(s) outro(s).

Regozijou-se com aquela ideia.

Retornou correndo de volta ao encontro das figuras que encontrara abaixo da paineira. Fez um gesto que sugeria um pedido de desculpas pela descortesia de mais cedo e pediu que lhe ensinassem a brincar de “apanágio… deságio… Elucidágio!”

Riu ao refletir onde teria aprendido aquelas palavras engraçadas

A humana de cabelos cor de caju deu risada e o puxou pelo braço. Recebeu-lhe com um sorriso largo como se desse as boas vindas à peça que faltava na brincadeira.

Sair da versão mobile