Tenho acompanhado o declínio da credibilidade do Prêmio Nobel da Paz nos últimos anos. Desde que foi criado, ele sempre simbolizou (ou deveria simbolizar) compromissos com a cooperação internacional, direitos humanos e resolução pacífica de conflitos. Mas há tempos o prêmio anda longe de refletir esses valores. Já vimos escolhas questionáveis, por exemplo, a concessão a Barack Obama, que recebeu o prêmio no início de seu mandato, em grande parte por expectativas e promessas, e não por resultados concretos. É um exemplo clássico de um reconhecimento cuja justificativa sempre foi debatida e criticada.
No entanto, neste ano, vivenciamos algo ainda mais impressionante e, a meu ver, profundamente desmoralizante. Em 2025, o Comitê Nobel concedeu o Prêmio Nobel da Paz a María Corina Machado, líder da oposição venezuelana, oficialmente “por seu trabalho na promoção dos direitos democráticos do povo da Venezuela e por sua luta por uma transição pacífica de um regime autoritário”, uma escolha que já dividiu opiniões desde o anúncio do prêmio.
Mas a situação tomou um rumo que, para mim, ultrapassou qualquer limite de descrédito. Ontem, a própria ganhadora entregou sua medalha do Nobel da Paz ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em um encontro na Casa Branca que acabou viralizando e gerando choque internacional.
Não vou nem entrar no debate político sobre premiar alguém que defende a intervenção estrangeira no seu próprio país, tema por si só complexo e que muitos já analisaram de múltiplos ângulos. O que me parece impossível de ignorar é a cena em si: a vencedora do Nobel da Paz entregando a medalha ao presidente que ordenou uma intervenção militar, bombardeando o seu próprio país. Além disso, Trump não tem feito nada que realmente aproxime a humanidade da paz duradoura que o prêmio pretende celebrar.
Ver esse gesto foi, sem exagero, uma das cenas mais constrangedoras da política mundial que já testemunhei. Foi embaraçoso em nível internacional. Líderes noruegueses e jornalistas políticos já classificaram o ato como “absurdo” ou mesmo uma ofensa ao próprio significado do prêmio.
O cúmulo dessa subserviência, dessa espécie de reverência pública a uma figura que não representa os ideais de paz que deveriam animar este prêmio, me faz questionar seriamente o que está por trás desse gesto. Fico imaginando se não há, nesse ato, um mecanismo psicológico profundo: alguém que, sabendo que não é um verdadeiro merecedor do prêmio, não consegue nem mesmo olhar pra ele e o entrega a outra pessoa.
