Cidadão de conceitos e valores adquiridos em décadas passadas, não sou afeito a modismos, tampouco a verdades que, mesmo verdadeiras, tendem a ser desfeitas. Na verdade, tenho medo de deixar de cumprir promessas. Por exemplo, nunca digo que dessa água não beberei. Posso claudicar e perder o respeito junto aos meus seguidores do IFood. Pelo sim, pelo não, fujo do noticiário de fofocas envolvendo senhores e senhoras das casas de massagens mais ortodoxas. Prefiro as modernas, embora não saiba para que elas servem. O que não me permito é folhear revistas que exploram a opção sexual dos artistas como se estivessem noticiando algo novo.
Às vezes, falho em minhas convicções. Como não sou de ferro, nem sempre cumpro promessas pessoais, do tipo não faço isso porque foge dos meus princípios de macho alfa. Dia desses, lendo sorrateiramente uma dessas colunas produzidas para quem tem pouco a fazer, fui informado que 11 entre dez atores, atrizes e cantores, globais ou não, são bipolares na parceria sexual. Piscam a lanterna, mordem o biscoito, mas não deixam de sapecar a pamonha. Tudo simultaneamente e não necessariamente nessa ordem.
Não tenho razão alguma para questioná-los. No entanto, confesso que, apesar do novidadeiro interesse pela leitura de assunto tão frugal, não penso em me aprofundar na história. Melhor continuar no meu catre de recruta e não me aventurar pelos lençóis macios do pessoal do reduto. Tudo bem que a Mafalda e o Tonho foram programados para diversão alheia. Não há regra para o uso, que pode ser incontido, desenfreado e, se preferirem, desembestados. Aliás, em se tratando do Tonho, vale refletir que sua senhoria deve ser pensada como as setas dos veículos automotores: foram feitas para dar.
Mais do que o fato de os homens estarem se liberando sem preocupação com a vizinhança, chama a atenção o número de mulheres afamadas ou difamadas a trocarem a ordem da pestana. Mais uma vez, afirmo que nada tenho contra a colagem de velcros. Pelo contrário. Que ponham as aranhas no ringue e vença a que tiver maior embocadura. Rogo a Deus somente para que não me convoquem como árbitro. Não me passa pela cabeça uma forma menos republicana de meter o bedelho onde não fui chamado. Não sei se me entendem, mas em briga de aranhas o peru normalmente fica de fora e não dá peruada.
À parte as brincadeiras maledicentes e de sentido duplicado, esse tipo de história bobicenta me faz lembrar do relato de um amigo mineiro, recém-chegado da bucólica cidade de Dom Silvério. Tentando encontrar novos caminhos para a sossegada, mas incômoda trajetória de aposentado, o parceiro de emendas e sonetos procurou uma dessas empresas que contratam senhores de meia ou máxima idade para estágios de primeiro, segundo e terceiro graus. Tudo dentro da maior seriedade e baseado na Consolidação das Leis do Trabalho. Ou seja, sem libidinagem descompromissada. Enquanto aguardava a convocação para o tête-à-tête com a única entrevistadora, ouviu todas as entrevistas anteriores.
A maioria dos pretendentes ao cobiçado cargo era mulher. A primeira disse ser costureira profissional, mas adora mulher e optou por ser lésbica. Engenheira química, a segunda repetiu o mantra: adoro uma mulher. Por isso, sou lésbica. Ambas foram seguidas por todas as demais. Simplório, ingênuo e incapaz de imaginar o que seria o modismo do lesbianismo, o mineirinho sentou-se à frente da moça que o iria inquirir e, antes que ela perguntasse alguma coisa, foi logo dizendo: Moça, sou pedreiro dos bons e gosto muito de muié. Então, acabo de descobrir que também sou lésbica. É claro que ele perdeu a vaga. Afinal, nem toda verdade pode ser dita em ambientes que a gente não domina.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras
