Sábado de manhã. Bruno vestiu sua roupa de ginástica. Dá um beijinho na testa de Patrícia, sua esposa, que fica trabalhando com tranquilidade em home office. Bruno tinha por costume malhar pelas manhãs e, depois, trazer uma quentinha de um restaurante para almoçarem juntos em casa.
— Amor, tô indo.
— Por favor, querido, não traga nada gorduroso para o almoço. Tentarei terminar cedo hoje. Boa malhação.
O casamento de 15 anos, embora estável, exibia os desgastes do tempo. As responsabilidades do casal, as demandas com a filha, os compromissos sociais que não eram poucos, faziam Bruno sentir-se vivendo num ciclo interminável de tarefas.
Sentia-se grato e valorizava sua vida, porém, era comum cometer deslizes emocionais. Não raro, Bruno se permitia viver casos extraconjugais. Geralmente rápidos e sem dramas. Ficar com alguém, vez ou outra, o revigorava, era um paliativo para a vida. Um dos casos que mais lembrava era com Nati, uma mulher casada com quem se relacionara havia alguns anos. Eram colegas de trabalho e conviveram por um longo período. Acabaram se aproximando e tiveram um caso, de poucos meses, que terminou por decisão da moça.
Ao caminhar para a sua academia, pensando em qual restaurante compraria o almoço, Bruno avistou alguém familiar. Era Roni, o marido de Nati. Bruno ficou curioso ao vê-lo por ali, local fora do circuito da família. Jamais imaginara ver Roni ali. Bruno hesitou, mas a malícia e o desejo de, internamente, zombar de seu antigo rival, o fez se aproximar.
— Roni, Tudo bem? quanto tempo! — cumprimentou Bruno, cordial.
— Oi Bruno! Quanto tempo mesmo! Como você está? E a família?
— Estamos bem! Fora as correrias e suas eternas obrigações, tudo certo. E a Nathália, há tempos não a vejo. Tudo bem?
O bate papo correu com facilidade. Enquanto conversavam, Bruno foi perdendo a ironia inicial e a vontade silenciosa de se regozijar da situação. Para sua surpresa, conforme Roni contava algumas dificuldades corriqueiras de suas relações familiares, Bruno sentiu conexão e familiaridade com ele. O marido de Nati falava um pouco de suas vidas, das conquistas de Nati, de algumas dificuldades que atravessaram juntos, de uma quase separação que conseguiram contornar e se acertarem.
Enquanto Roni falava, Bruno lembrava de quando Nati rompeu o curto caso que tiveram. Mesmo que, para ele, fosse uma aventura passageira, ele tinha afeto por Nathália, gostava de estar com ela. Doera o afastamento, que foi total. Nathália trocou de emprego e Bruno sabia que, em grande parte, fora por arrependimento do caso que tiveram, foi a forma que ela encontrou de livrar-se dele e de esquecer seu erro.
Ao ouvir Roni, Bruno não viu o “otário” que ele imaginava no passado. Longe disso, viu ali um homem maduro que, assim como ele, carregava seus fardos e dificuldades, tentando fazer o seu melhor. Despediram-se amigavelmente e Bruno seguiu para seu destino.
Enquanto corria na esteira da academia, Bruno não conseguia deixar de pensar em como estamos suscetíveis aos acontecimentos da vida. Com esse recente encontro com Roni, ele entendeu que seu casamento também tem suas dificuldades. Começou a se questionar: “E se Patrícia também já tivesse se permitido viver uma aventura? E se ela já teve um amante amigo e nosso casamento virou pauta de conversar entre vinho e carícias?”
Bruno pensou que, assim como Roni, também é um candidato a ser alvo de zombaria de outro homem, a ser o corno visto na rua. E, quiçá, por um dos amigos de Patrícia, conhecido seu. Pensou sobre suas tantas faltas na relação. Quantas vezes Patrícia o repeliu, magoada? Muitas.
Naquela manhã, Bruno correu por duas horas, saiu com a panturrilha doída. Repassando mentalmente a conversa com Roni, o sentimento inicial de soberba e de sentir-se por cima se desfez. O marido de Nati era um bom homem, de boa aparência, bem sucedido, equilibrado e visivelmente amava sua família, e ainda assim, sua relação quase sucumbiu. Roni, era um homem comum, lidando com as dificuldades da vida, como qualquer outro.
Já no restaurante, esperando a comida ser entregue, Bruno refletia, amargamente, sobre seu próprio casamento: “Todos lutamos com nossos problemas, fui babaca em querer zoar o cara. A roda da vida gira. Espero que não, mas a história do Roni, pode ser a minha história”.
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Fabiana Saka (@fabianasaka), escritora e psicóloga clínica no Rio de Janeiro, é autora de “As Aventuras de Daniel – não tenha medo de si mesmo” (Ed. Ases da Literatura, 2024).
