“Construir contos secos. Cortantes. Ácidos.
Choveu o dia; quando tarde, sol veio, noite se foi.
O trem está ali parado”.
— Sabe que eu gosto muito.
Por todos os lados os modelos. Frases feitas. Esquemas. Escrever assassinando qualidades. Obsessão pelo essencial.
— Sabe que eu gosto muito de você.
Amor é dor que ainda não chegou. Construir contos secos. Cortantes. Ácidos. Choveu o dia; quando tarde sol veio, noite se foi. O trem está ali parado.
— Sabe que eu gosto muito de você e não sabia.
A estação espera. Plataformas retardam a passagem do amor. Invento contos para o menino que um dia fui. Viajante de formas. A dor espreita, espera, avança. O olho seco no corpo que passa. Sedução de movimentos. Pernas que dançam sobre saltos.
— Sabe que eu gosto muito de você e não sabia que o amor existia.
Meu coração tropeça. O chefe apita o trem e a dor desanda. Trilha de sangue no trilho de aço. O salto de verniz espelha o sangue e o mundo espreita. O menino moído sobre o trilho escarlate. Pernas trêmulas sobem o último degrau. Plataforma transposta. É hora de reinventar contos para a mulher sobre pernas.
— Sabe que… .
Súbito, o homem vomita adjetivos pela janela do vagão.
…………………….
Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador que ainda sonha todas as noites em viajar novamente de trem. Vive na comunidade de pescadores da Guarda do Embaú, SC.
