Li O Perfume (Das Parfum, die Geschichte eines Mörders – O Perfume, História de um Assassino, Record/Altaya, Rio de Janeiro, 1985, 255 páginas), romance do escritor alemão Patrick Süskind, em 1998, aos 44 anos de idade. Conta a história de Jean-Baptiste Grenouille, que possui um olfato muito mais apurado do que o de um cachorro, tanto que ele enxerga pelo nariz, orienta-se, na maior escuridão, pelo olfato, e parece que está enxergando tudo à luz do dia. Consegue sentir fragrâncias que o interessam a grandes distâncias e armazená-las em uma memória também excepcional.
Mas ele porta uma tragédia, tão extrema quanto seu faro: seu corpo não tem cheiro, o que faz com que as pessoas não o percebem, como se ele fosse um fantasma. “O odor é a essência, e o que não tem essência não existe.” Ao perceber isso, a necessidade de ser notado, de ser amado, cresce nele, e o consome.
A história se passa na França do século XVIII, em Paris, Auvergne, Montpellier, Grasse e, novamente, Paris, onde Grenouille veio ao mundo em meio a vísceras de peixe, em uma feira nas proximidades de um cemitério. A partir daí, a vida de Grenouille é uma luta pela sobrevivência. Adulto, se dá conta de que não tem cheiro, mas há uma saída: com seu olfato e memória poderosos poderá confeccionar perfumes excepcionais; só precisa aprender todas as técnicas da então indústria de perfume e fabricar um perfume que lhe dê não somente personalidade, mas também que faça com que as pessoas o amem, que se ajoelhem diante de si, que chorem de tanta emoção de se aproximar dele.
“Ele seria o deus onipotente do olfato, assim como fora em suas fantasias, mas desta vez no mundo real e sobre pessoas reais. E ele sabia que tudo isso estava ao seu alcance. Pois as pessoas podiam fechar os olhos para a grandeza, para os horrores, para a beleza, e os ouvidos para melodias ou palavras enganosas. Mas não podiam escapar do olfato.”
Ele sabe o que quer, mas ainda não sabe como criar seu perfume final, até encontrar uma adolescente virgem, ruiva, de olhos verdes, com um perfume inebriante recendendo do seu corpo, um cheiro leve à loucura, mas, ao mesmo tempo, uma aura redentora, luminosa, o perfume perfeito, “capaz de criar um mundo inteiro, um mundo mágico e rico”. Grenouille guarda na sua memória prodigiosa esse odor, que encontra, mais adiante, em 26 jovens, também ruivas e de olhos verdes, a última das quais excepcionalmente linda. É a partir dessas 26 jovens que ele cria o perfume, aquele que o tornará Deus.
Contudo, a tragédia de Grenouille é ainda mais funda. Para ser amado é preciso ter a capacidade de amar e Grenouille, além de não ter cheiro, também não tem a capacidade de amar.
Como eu disse, li O Perfume aos 44 anos de idade. Fiquei impressionado, pois se trata de um dos mais extraordinários livros de criação de toda a literatura universal, na minha modesta opinião, é claro. Aos 44 anos, eu era ainda mais obtuso do que hoje. Já havia publicado alguns contos e poemas, mas, em termos de sabedoria, era uma besta quadrada. Pois bem, acabo de reler O Perfume, agora, claro, com uma visão mais requintada da vida, aos 71 anos de idade, o que me permitiu vislumbrar, no livro, sua alma: a intenção ao se usar perfumes é buscar aceitação, ser amado pelo próximo.
A filosofia descobre a verdade e a ciência explica a mecânica. A filosofia teoriza sobre a vida e o amor, enquanto a ciência mostra como é a mecânica da vida e do amor. O psicanalista austríaco Sigmund Freud e o psicanalista francês Jacques Lacan descobriram que a maior força do ser humano é o sexo. O sexo é o maior estímulo que temos para viver. Tudo gira em torno dele.
Os cinco sentidos são as antenas que captam a matéria e o sentido mais atuante é a visão. A beleza física é esmagadora. Não há nada que a freie. Na minha juventude, tive um amigo que era um Brad Pitt da vida, no auge da sua beleza. Mulheres, inclusive casadas, imploravam para ele as possuir. E, no cataclismo do sexo, o contato com a pele, com os lábios, o púbis, incendeiam ainda mais a fogueira.
Além da visão e do tato, a audição também é um estímulo poderoso. Quando ouço Wolfgang Amadeus Mozart, Ludwig van Beethoven, Niccolò Paganini, Piotr Ilitch Tchaikovski, as melhores gravações de Frank Sinatra, Billie Holiday, Édith Piaf, Gal Costa, Amira Willighagen aos 9 anos de idade cantando Ave Maria de Charles Gounod e Johann Sebastian Bach, lágrimas me vem aos olhos. Se estiver só, choro. É que os sons divinos sobem até alma.
Na animação Ratatouille (2007), o crítico gastronômico parisiense Anton Ego, ranzinza e exigente, prova o prato preparado pelo rato Remy, um cozinheiro genial, e o sabor da comida desperta em Ego uma memória afetiva da sua infância: a comida feita por sua mãe. E o mundo se transforma para Anton Ego, levando-lhe leveza ao coração.
Aos sábados, na Pedra da Ceasa, há uma banca especializada em iguarias paraenses – O Pará Tá Aqui. De vez em quando vou lá e tomo tacacá, e então todo um mundo amazônico e caribenho irrompe na minha memória, com cheiros e sabores, recendendo a jasmineiros chorando em noites tórridas, ostra com Cerpinha ao mar, merengue cubano, a mulher cafuza.
Porém o mais recôndito e explosivo dos sentidos é o olfato. Ele é a antena que fareja os feromônios. Em certa fase da minha vida, em Manaus/AM, aos 21 anos de idade, quando somos imortais, pois todos os jovens são imortais, simplesmente porque nas suas memórias a morte ainda não se manifestou, observei um fato inesquecível. Não sou nenhum Marlon Brando, pelo contrário, sou baixo, feio e besta, e não sou personagem romanesca, mas, naquela época, mulheres, inclusive casadas, ofereciam-se a mim.
Analisando esse fenômeno lembrei-me de alguns detalhes. Na época, eu não usava desodorante, shampoo nem perfume algum. Certo dia, no banheiro, fiquei horrorizado com a visão de uma colônia de bactérias do gênero Corynebacterium, que se proliferam devido à umidade e calor da região, uma camada amarela, aderida aos pelos das minhas axilas, de onde saía um odor forte. Era a falta de desodorante antitranspirante associada ao suor excessivo. Há mulheres que adoram o cheiro de suor de machos e chegam a cheirar-lhe as axilas.
Acrescento um fator importante para a libido humana: o charme. Aos 21 anos eu já era poeta, jornalista (sem diploma) e frequentava o Clube da Madrugada, e era imortal.
O olfato é o gatilho da libido. Libido, do latim “anseio ou desejo” sexual, é influenciada por fatores hormonais, especialmente os hormônios testosterona e estrogênio; físicos; emocionais; e sociais. Baixa libido pode ser causada por estresse, má alimentação, medicamentos, problemas físicos ou falta de autoconhecimento. Já o aumento da libido envolve basicamente conhecimento de como funciona o corpo humano, dieta, exercícios físicos e dormir bem.
O fato é que o impulso, desejo ou anseio sexual é essencial para a reprodução da espécie e a saúde física e emocional. A queda na produção de testosterona, tanto em homens como em mulheres, e de estrogênio nas mulheres, diminui o desejo sexual, e a baixa libido causa astenia, baixa autoestima, estresse, ansiedade, depressão, vícios e doenças crônicas. Para o fundador da Psicanálise, o neurologista Sigmund Freud, a libido é o impulso vital para a autopreservação da espécie humana, é a energia que impulsiona a vida, que abrange toda a força vital e vontade de viver.
Na busca por libido, especialmente por homens desejosos de atraírem mulheres, muito se investigou sobre feromônio, que funciona como um mensageiro químico para comunicação entre indivíduos da mesma espécie. O sentido do olfato funciona por meio de quimiorreceptores na cavidade nasal, que transmitem informações dos receptores ao bulbo olfativo, que, por sua vez, processa essas informações utilizando dados da memória e o disparo de emoções. Um olfato apurado identifica facilmente alimentos perigosos e, também, feromônios. Uma pessoa que perde o olfato é como se perdesse o prazer de viver; torna-se um zumbi. Os odores são essenciais nas memórias, tornando-as emocionalmente mais intensas.
Nariz, do francês “le nez”, é o profissional da indústria de perfume que desenvolve, compõe, cria fragrâncias de perfumes, cosméticos e produtos de higiene. É o artista do perfume, combinando diferentes ingredientes aromáticos para criar um aroma exclusivo. Geralmente, é graduado em Química ou Farmácia. O nariz procura associar fragrâncias a emoções, conceitos ou ideias, utilizando óleos essenciais extraídos de flores, plantas, madeiras ou frutos, ou sintetizados em laboratório; álcool de alta qualidade; e água. O perfumista, ou nariz, combina dezenas ou centenas de ingredientes para criar a fragrância que ele idealiza.
Civilizações antigas, como a egípcia, a persa, a grega e a romana, utilizavam perfume; a realeza, claro. Hoje, todo mundo usa perfume, principalmente desodorante. Mas há uma química atrás da qual todo mundo anda: os feromônios. São substâncias químicas produzidas pelos animais, incluindo insetos, que conduzem mensagens sexuais entre membros da mesma espécie. Certa vez, vi um cachorro vira-lata saltar um muro várias vezes mais alto do que ele atraído por uma cadela no cio, presa no outro lado do muro.
Feromônio é uma substância química produzida e excretada por glândulas exócrinas epiteliais em diversas partes do corpo, provocando excitação ou estímulo sexual entre indivíduos da mesma espécie. Entre 1956-1959, o cientista Adolf Butenandt, que ganhou o Nobel por trabalhos em hormônios, descobriu o primeiro feromônio, o Bombicol, produzido pela mariposa do bicho-da-seda (Bombyx mori). Ele e sua equipe dedicaram décadas isolando essa substância de centenas de milhares de mariposas, a fim de determinar a estrutura do Bombicol.
Em 1959, os cientistas Peter Karlson e Martin Lüscher cunharam o termo feromônio, do grego pherein (transmitir) e hormon (excitar), ou seja, uma substância secretada para o meio externo por um indivíduo e recebida por outro da mesma espécie, desencadeando, no outro, uma reação comportamental.
Feromônios, produzidos por ambos os sexos, tanto em animais quanto em humanos, são substâncias químicas produzidas pelo corpo e liberados, principalmente, por glândulas sudoríparas, nas axilas e em outras áreas da pele. Estudos comprovam que as mulheres produzem feromônio no período fértil. Assim, enquanto feromônios masculinos têm a função de sinalizar dominância, ou atração, os femininos sinalizam prontidão reprodutiva. Mas, embora haja evidências de compostos químicos que atuam como feromônio em humanos, a ciência ainda não bateu o martelo sobre sua influência efetiva no comportamento sexual e social humano.
Fêmeas de animais solitários, como insetos, polvos, leopardos-das-neves, emitem sinais químicos, feromônios, na urina, fezes, no ar, que podem ser detectados por machos a quilômetros de distância. Traças, aranhas, grandes felinos, marcam seu território com feromônio, indicando que estão prontos para o acasalamento. Algumas espécies, como cobras e animais marinhos, migram para áreas específicas em certas épocas do ano para se reproduzirem. Algumas aves dançam para impressionar a fêmea; outras, constroem ninhos aconchegantes.
No acasalamento, entram, também, componentes como sons. Muitos animais atraem o parceiro por meio de cantos ou gritos. Entre os sapos e rãs, os machos chamam as fêmeas por meio de sons. Entre os seres humanos, o timbre da voz é um grande atrativo às mulheres, assim como a simetria do corpo, especialmente do rosto.
É possível fabricar feromônios sintéticos, em laboratório – compostos químicos que imitam as substâncias naturais liberadas por animais e insetos para comunicação, utilizados na agricultura, para controle de pragas, e na pecuária, para a reprodução. Só não foi inventado, ainda, um feromônio humano, com poder de sedução irresistível. O fato é que jamais uma substância química, ou conjunto de substâncias químicas, foi identificada como feromônio humano, assim como isso já foi identificado em insetos, que têm estrutura infinitamente mais simples do que seres humanos.
Animais da ordem dos mamíferos entram no cio – do latim “ciere” ou “cieo”, “pôr em movimento, excitar, despertar” –, o período de excitação sexual e fertilidade em fêmeas, caracterizado por mudanças comportamentais (desejo sexual intenso ou luxúria) e fisiológicas (ovulação), que preparam para a reprodução. Nos machos observa-se aumento de testosterona, o principal hormônio androgênico.
Após o orgasmo, tanto machos quanto fêmeas experimentam um aumento no nível de endorfinas, conhecida como “hormônio da felicidade”, neuro-hormônio produzido pela glândula hipófise, situada no cérebro, que atua como analgésico natural, aliviando dores, reduzindo o estresse e promovendo sensações de prazer e euforia; e ocitocina, conhecido também como “hormônio do amor”, um neurotransmissor produzido no hipotálamo, que promove empatia, vínculo social e prazer, promove laços sociais, fortalece vínculos afetivos, gera empatia, confiança e bem-estar, estimula contrações uterinas no parto e a ejeção de leite materno, reduz o estresse, ansiedade e depressão, e aumenta a libido. Sua forma sintética é usada para induzir ao trabalho de parto e tratar hemorragias pós-nascimento do bebê.
A produção natural de ocitocina depende de vários fatores. Diversos alimentos ajudam o corpo a produzir e liberar mais ocitocina, como os alimentos ricos em vitaminas D e C, magnésio e gorduras saudáveis, como frutas, principalmente abacate e tâmara; chocolate amargo; sementes de abóbora, chia e girassol; espinafre e couve, amêndoas e castanhas; peixes gordos, salmão, atum e sardinha; ovos; cogumelos; e lactobacilos. Também a ocitocina é liberada por meio de abraços e toque físico; atos de bondade, como trabalho voluntário; ouvir música e dançar.
Outro neurotransmissor que atua no sistema de recompensa do cérebro é a dopamina, que promove motivação, concentração, aprendizado, memória controle motor e prazer. Assim, regula o humor e o aprendizado, sendo, desse modo, crucial para evitar desmotivação e apatia, e ampliar o interesse pela vida. Baixos níveis de dopamina estão associados à depressão, Doença de Parkinson, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), esquizofrenia, bipolaridade e vício, e à busca desenfreada por prazer (fast food, redes sociais, substâncias, desvios sexuais, jogos), fatores que elevam a produção de dopamina, causando tolerância e dependência.
Mas a dopamina pode ser aumentada naturalmente, por meio de atividades físicas regulares e o consumo de alimentos ricos em tirosina (precursor da dopamina), como abacate, banana, feijão, ovos, peixes e carnes, bem como meditação, ouvir música e dormir bem. A dopamina sintética é utilizada para tratar choque cardiogênico (falha de bomba do coração) ou séptico (resposta inflamatória grave à infecção).
A busca desenfreada por prazer leva a vícios e estresse crônico, que, por sua vez, levam a uma produção excessiva de adrenalina, hormônio e neurotransmissor produzido pelas glândulas suprarrenais, que prepara o corpo para “luta ou fuga”, em situação perigo ou forte emoção, aumentando rapidamente o ritmo cardíaco, a pressão arterial, a respiração e a glicose no sangue, direcionando energia para os músculos.
A adrenalina sintética é crucial em parada cardiorrespiratória e choque anafilático, que é uma reação alérgica grave, de início rápido e potencialmente fatal, causando queda abrupta da pressão, falta de ar, inchaço na garganta e urticária, geralmente desencadeada por picada de insetos, medicamentos e alimentos, como nozes e frutos do mar.
A norepinefrina, ou noradrenalina, é um neurotransmissor e hormônio crucial para a resposta ao estresse, regulação do humor e foco. Trata-se de um potente vasopressor, utilizado no tratamento de estados hipotensivos agudos, como choques cardiogênico e séptico, infarto do miocárdio e hipotensão aguda, pois aumenta a pressão arterial por vasoconstrição.
Então, feromônios humanos são o cruzamento de uma série de fatores e determinadas circunstâncias, o que leva a entrar em campo um neurotransmissor: a serotonina, o “hormônio do bem-estar”, que atua tanto no sistema nervoso central como no trato gastrointestinal, regulando ritmo cardíaco, temperatura corporal, apetite, sono, humor, memória e atenção. Sua deficiência é causa de ansiedade e depressão. Os níveis de serotonina aumentam naturalmente com exposição ao Sol durante 15 minutos diariamente; exercícios físicos e alimentação adequada.
O zinco é um mineral fundamental para o corpo humano, especialmente a saúde sexual masculina, pois aumenta os níveis de testosterona. Está presente principalmente em ostras, carne vermelha, frango, nozes, sementes de abóbora e feijões. Zinco auxilia na produção de óxido nítrico, vasodilatador produzido pelo corpo, melhorando a circulação do sangue no pênis e oxigenando os músculos. Óxido nítrico é encontrado em vegetais, como espinafre, rúcula, couve, beterraba, aipo e alface.
Há uma substância importante para o desempenho sexual, pois é rica em óxido nítrico: a citrulina, que, também, reduz a fadiga muscular e melhora a circulação sanguínea. Melancia é rica em citrulina.
Muitos homens apelam para o medicamente Viagra (citrato de sildenafila), que relaxa a musculatura e aumenta o fluxo sanguíneo no pênis, ingerido quando o homem se encontra em estado de estímulo sexual, em uma dosagem de 50 mg, cerca de uma hora antes da relação.
Não é afrodisíaco, nem aumenta a libido, daí porque deve ser ingerido em estado de estímulo sexual, pois não dispara nenhuma hormônio ou neurotransmissor referente a emoções. Sua ação é puramente física e dura de quatro a seis horas. Não deve ser usado por quem ingere medicamentos contendo nitratos ou óxido nítrico, devido a riscos de baixar a pressão arterial para níveis que podem levar a tontura, desmaio ou morte.
Para o fundador da psicanálise, o neurologista austríaco Sigmund Freud, a sexualidade não se limita ao ato sexual genital, mas engloba uma busca de prazer (libido) que permeia toda a vida humana, da mais tenra infância até a velhice. Para Freud, a sexualidade é a energia vital, que impulsiona ações e molda a personalidade, e, quando reprimida, origina neuroses e repressão. Impulsos sexuais reprimidos na infância manifestam-se como sintomas neuróticos na idade adulta.
No caso do feromônio, há uma importante conexão com os estudos de Freud: o instinto. A sexualidade humana é movida por impulsos psíquicos e não por instintos biológicos como nos animais irracionais, pois a pulsão sexual busca prazer (erotismo) e não apenas a procriação. Os animais irracionais são arrastados para a procriação por um impulso biológico, hormonal, enquanto que os seres humanos buscam prazer erótico e procriam quando querem, com ou sem desejo.
Em suma: humanos não produzem feromônios. É provável que os homens primitivos os tivessem, até, quem sabe, a Idade Média, mas, se assim foi, foram perdendo essa capacidade. Hoje, com os perfumes, os cosméticos, os medicamentos, os alimentos industrializados, a poluição, a afeminação dos homens, a higiene corporal excessiva, o processo que redundava no que se chama feromônio desapareceu. Exceto em alguns homens.
A busca por se tornar um homem de magnetismo pessoal irresistível por meio de uma arma como feromônio é um desejo que povoa o imaginário de bilhões de machos. Contudo, a ciência já comprovou duas coisas: feromônios funcionam claramente no reino animal irracional, para acasalamento e marcação de território. Entre homens, não; e feromônios funcionam por meio de sinais químico-olfativos. Suponhamos que os homens produzam feromônios; neste caso, os feromônios estariam no suor produzido nas axilas, que contém compostos como a androstadienona, substância encontrada no suor masculino, considerado o “cheiro da atração”.
Trata-se de um esteroide andrógeno derivado da testosterona, encontrado no suor masculino, que seria o feromônio humano, influenciando o humor e a atenção das mulheres, aumentando, assim, a atração, em mulheres, de homens com androstadienona. Sabedor disso, o homem que usa perfume com androstadienona aumenta sua autoconfiança, tornando-se, por conseguinte, mais atraente. Confiança gera carisma, fator de atração poderoso. Conclui-se que feromônio humano é uma mistura de suor e autoconfiança, e não um aroma em um frasco.
O super-homem de Friedrich Nietzsche tem feromônio ou prescindiria dele? O Übermensch – super-homem ou além-do-homem –, do livro Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche, cria seus próprios valores, aceita a vida como ela é, com suas dores e prazeres, e prescinde de dogmas religiosos. É um homem que está acima da moral do rebanho e que define seu próprio sentido para a existência. É estoico, não se lamenta nem sente ressentimento. Equilibra a racionalidade com a paixão, a liberdade com a responsabilidade, cria o próprio destino. É um tipo de homem que não se ajoelha aos pés de nenhuma mulher, embora respeite todas elas, e que, se uma mulher se entrega a ele, buscará picos de prazer e a levará junto. Este homem tem sex apeal.
Sex appeal é o apelo sexual, atração física, sedução, magnetismo pessoal, sensualidade, personalidade, carisma, atitude, voz, postura, que um homem ou uma mulher exerce sobre os outros, provocando desejo, ou interesse. Esse conjunto de qualidades configura-se como energia sexual, magnetismo, charme – este, um encanto que transcende a beleza física. Assim, sex apeal remete a fascínio, sedução, atração, beleza, elegância, graça, magnetismo, simpatia, glamour. Pessoas charmosas demonstram autenticidade, autoconfiança, atitude, sedução.
O homem primitivo certamente produzia feromônio de forma semelhante a outros mamíferos, o que garantia comunicação social, comportamento sexual e reprodução. Contudo, a produção e a sensibilidade a esta substância foi-se reduzindo ao longo da evolução. Os seres humanos adultos possuem um órgão vomeronasal vestigial, ou órgão de Jacobson, localizado no septo nasal, especializado, nos mamíferos, para detectar feromônios.
Acredita-se que a perda de pelos corporais, que ajudavam a espalhar e concentrar o odor dos feromônios, e o desenvolvimento de formas complexas de comunicação social, especialmente das diversas línguas, substituíram o mecanismo da comunicação puramente química.
Penso que beleza física é, talvez, o mais eficiente feromônio. Outro feromônio eficiente é charme, que tem uma vantagem sobre beleza física: não acaba, até a morte. E há perfumes. “Há um poder de convicção no perfume que é mais forte do que palavras, do que olhar, sentimento e vontade. O poder de convicção do aroma não pode ser descartado, entra dentro de nós como o ar em nossos pulmões, nos ocupa completamente, não há antídoto contra ele” – lê-se em O Perfume.
Jean-Baptiste Grenouille “ainda seria capaz de criar um odor que fosse não só humano, mas sobre-humano, um odor angélico, tão indescritivelmente bom e com tanta energia vital que quem o cheirasse ficaria enfeitiçado, ficaria sob um encantamento, tendo de amar de todo o coração a Grenouille, o portador desse fantástico aroma. Sim, amá-lo é o que deveriam quando estivessem sob o fascínio do seu cheiro, não apenas aceitá-lo como igual, mas amá-lo até a loucura, até o sacrifício pessoal; deveriam tremer de encanto, uivar e gritar, chorar de prazer, sem saber por quê, cair de joelhos – isto é o que deveriam fazer como sob o incenso frio de Deus, só por chegarem a cheirá-lo!”
“As pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas.”
“…um cheiro tão assustadoramente divino. …produzindo um impacto a que nenhum ser humano, homem ou mulher, escaparia. E as pessoas ficariam dominadas, desarmadas, perdidas diante do fascínio…”
Afinal, o ser humano produz feromônio ou não? Bom, como bem observou Albert Einstein, o Universo é, todo ele, energia, e energia está sempre em movimento, vibra. Vibração, ou oscilação, é movimento que se repete, regular ou irregularmente, em determinado intervalo de tempo. No contexto da física quântica, quando a energia se condensa e forma matéria, ela vibra mais lentamente em comparação com a energia em estado menos denso, como a luz. Quanto mais baixa, lenta, condensada, é a vibração ou frequência da energia, mais densa ela é, ou seja, é matéria, sólida. Energias como pensamentos e emoções possuem frequências vibracionais mais rápidas. A vibração da consciência e do corpo físico é influenciada por uma combinação de fatores – físicos, emocionais, mentais e ambientais.
David R. Hawkins (1927-2012), psiquiatra, pesquisador da consciência e professor norte-americano foca, nos seus livros, sobre a evolução espiritual e a relação entre mente, espírito e divindade. Ele criou o Mapa da Consciência, que mede os níveis de energia da consciência humana, oscilando de emoções negativas, como vergonha, culpa, apatia, tristeza, desejo, orgulho, medo e raiva, até estados elevados, como coragem, razão, alegria, amor, paz e iluminação. O mapa é utilizado para identificar estados emocionais predominantes, visando afetar a percepção da realidade e procurar elevar a vibração, por meio de uma vida saudável.
O que seria uma vida saudável? Agradecer a tudo e a todos, amar, procurar viver em paz, rir, ficar em silêncio, viver o agora, comer alimentos naturais e frescos, tomar sol, caminhar, respirar profundamente, descansar, cercar-se de pessoas positivas, manter ambientes limpos, organizados e iluminados, e meditar, são alguns fatores que elevam a vibração humana.
Ao passo que viver constantemente com medo, raiva, ciúme, inveja, culpa, vergonha, tristeza profunda, reclamando, ansioso, sedentário, comendo alimentos superprocessados e fast food, consumir açúcar, álcool e tabaco, assistir a noticiários sensacionalistas, violência, pornografia, ficar em ambientes caóticos e ter relações tóxicas, tudo isso gera estagnação de energia.
Além da vibração alta, o feromônio está presente no suor de quem não usa cosméticos, nem perfume, e se alimenta naturalmente. Que tal tomar banho somente com sabonete neutro, comer frutos do mar e peixes, duas castanhas-do-pará por dia, comer melancia e tomar açaí paraense diariamente, comer nozes, frutas, principalmente vermelhas, e abacate, pelo menos três vezes por semana, tomar banho de mar pelo menos três vezes por semana, caminhar pelo menos durante 40 minutos todos os dias, dormir de seis a oito horas diariamente, ler muito e não usar desodorante e perfume?
Pessoalmente, acho que o melhor feromônio é o que eu produzo: o não feromônio. Trata-se de algo absolutamente subjetivo, idiossincrático: minha igrejinha. Eu mesmo preparo a hóstia e a como, bebo o vinho, especialmente os italianos, ou do Porto, e oficio a missa, com roteiro meu. Não há confissão. Gosto de viver, da mulher amada, do mar, do azul, silêncio, ler, caminhar, ver, ofertar rosas para a madrugada, criar, sentir o eterno cataclismo do primeiro beijo, amar, cavalgar a luz. Como disse o pintor Olivar Cunha: “A vida é um tesão!”
