Hoje encontrei alguns velhos amigos e, entre eles, um conhecido novo, Flávio. Todos nós havíamos morado na Europa, porém ele trouxe novos ingredientes para nosso cozido globetrotter: uma estadia em Timor Leste e outros países asiáticos.
Foi interessante ouvir seu relato sobre como foi parar nessa parte do mundo. Não foi isso, porém, que me levou a escrever, e sim algumas palavras dele. Não ouvi o que foi dito antes, apenas esta frase:
– Não há um único exílio. São vários, superpostos.
Pensei imediatamente em Odisseu/Ulisses, arquétipo do exilado. Ele deixou seu reino de Ítaca para participar da expedição dos aqueus contra a cidade de Troia, e lutou por 10 anos nas praias da Ásia Menor. O que dá uma primeira acepção para exílio: projeto numa terra distante.
O estratagema do cavalo de Troia, imaginado por ele, levou os aqueus à vitória. Era o fim de um exílio – um projeto militar – de 10 anos, seus companheiros podiam voltar triunfantes para casa. Odisseu, porém, passaria mais 10 anos vagando, antes de pôr os pés no solo de Ítaca. As etapas do longo exílio efetivamente se sobrepunham e se entrelaçavam: viagem de navio, sete anos de permanência na ilha da ninfa Calipso, prosseguimento da viagem a bordo de uma jangada. Nesse cenário, o exílio é indissociável da ânsia pelo retorno.
Mas há também o exílio como castigo e, em certa medida, como purificação. Um exemplo bíblico é a parte final do Êxodo: Yaweh faz os israelitas vagarem por 40 anos pelo deserto do Sinai, até morrer a esmagadora maioria dos que tinham sido escravos no Egito. Entre eles Moisés, que viu de longe a Terra Prometida, sem entrar nela.
Pensei em seguida em meus próprios exílios. A troca de uma carreira bem-sucedida de editor na Abril Cultural pelo canto de sereia – não por acaso, imagem da Odisseia – do mundo acadêmico; a inadaptação, a sensação de ser, em Paris, um estranho numa terra estranha; a guinada rumo a Portugal, deixando para trás um casamento já em crise; o delicioso exílio lisboeta, entre passeatas, fados, bandeiras vermelhas e guitarradas; o exílio dentro do exílio, em Évora, como professor universitário; a hostilidade crescente contra o professor brasileiro, à medida que a revolução caminhava para um desfecho, que me levou a desistir da empreitada alentejana e me fez sentir na carne a xenofobia que recai sobre a grande maioria dos exilados; alguns meses de vagabundagem em Lisboa e em Paris, como ex-professor e ex-doutorando sem perspectivas.
E depois veio a chegada ao Brasil, a tentativa de conserto de meu casamento em destroços, que previsivelmente fracassou e fez me sentir, de novo, um estranho numa terra estranha; o ensaio de carreira universitária, de curta duração, paralelamente à retomada da trajetória editorial, já não tão brilhante, após um hiato de quatro anos. Outros tantos exílios, becos sem saída. E afinal, o desembarque nas praias de Ítaca: a redescoberta da brasilidade, embalada pelos acordes de O rancho da goiabada, magistral composição de João Bosco.
Tudo isso superposto, entrelaçado. E a superação, o deixar para trás cada um desses exílios me custou uma libra de carne.
