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Entre espiritualidade oriental, pensamento positivo e controvérsias

Fundada no Japão em 1930 por Masaharu Taniguchi, a Seicho-No-Ie surgiu em um período de intensas transformações sociais, políticas e espirituais no país. Seu nome pode ser traduzido como “Lar do Progredir Infinito”, expressão que sintetiza a ideia central da doutrina: a vida humana é, em essência, perfeita, harmoniosa e divina — e o sofrimento seria fruto de ilusões da mente.

Taniguchi construiu a Seicho-No-Ie a partir de uma síntese singular de elementos do xintoísmo, do budismo, do cristianismo e do pensamento idealista ocidental. No centro da doutrina está o conceito de Imagem Verdadeira: uma realidade espiritual perfeita, imutável e eterna, da qual o mundo material seria apenas uma projeção imperfeita.

Segundo essa visão, doenças, conflitos e dificuldades não teriam existência real em nível espiritual — seriam manifestações de ignorância ou desalinhamento mental. A solução estaria na correção do pensamento, por meio de práticas como:

A Seicho-No-Ie ultrapassou rapidamente as fronteiras do Japão, especialmente após a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, onde chegou oficialmente na década de 1950, encontrou terreno fértil, sobretudo entre descendentes de japoneses, mas também entre brasileiros atraídos por uma espiritualidade prática, menos ritualística e com forte apelo ao autodesenvolvimento.

Hoje, o Brasil é considerado um dos países onde a Seicho-No-Ie possui maior número de adeptos fora do Japão, com sedes, associações regionais, publicações próprias e eventos frequentes.

A classificação da Seicho-No-Ie é motivo de debate. Para seus seguidores, trata-se de uma filosofia de vida espiritualista, e não exatamente de uma religião institucionalizada. Já críticos e estudiosos apontam características típicas de movimentos religiosos organizados, como:

O termo seita, embora frequentemente utilizado no debate público, costuma carregar conotação negativa e é evitado por pesquisadores acadêmicos, que preferem enquadrar a Seicho-No-Ie como um novo movimento religioso de matriz oriental.

Nas últimas décadas, a Seicho-No-Ie passou por reformulações internas, especialmente após a morte de Taniguchi. A liderança atual enfatiza temas como:

Essas mudanças, no entanto, provocaram cisões internas, com grupos dissidentes defendendo uma interpretação mais tradicional da doutrina original.

Além disso, há críticas recorrentes ao discurso que minimiza a existência de doenças e sofrimentos, apontado por especialistas como potencialmente problemático quando afasta adeptos de tratamentos médicos ou da compreensão social das desigualdades.

A Seicho-No-Ie ocupa um espaço híbrido entre espiritualidade religiosa, pensamento positivo e autoajuda, antecipando em décadas discursos hoje populares sobre poder da mente, gratidão e prosperidade.

Para seus adeptos, trata-se de um caminho de iluminação e equilíbrio interior. Para críticos, um sistema que simplifica excessivamente problemas complexos da condição humana.

Entre crença e controvérsia, a Seicho-No-Ie segue como um fenômeno relevante na paisagem espiritual contemporânea — especialmente em países como o Brasil, onde diferentes tradições religiosas convivem, se misturam e se reinventam.

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