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Entre fragmentação interna e a urgência do inimigo comum

Se a revolução que desejamos pressupõe unidade estratégica, por que estamos em permanente tensão interna? Por que lésbicas e mulheres trans são colocadas em campos opostos dentro de um movimento que nasceu para enfrentar estruturas de dominação?

A primeira resposta exige rigor analítico: o feminismo nunca foi homogêneo. Desde suas formulações liberais no século XIX até as críticas interseccionais contemporâneas, trata-se de um campo de disputas teóricas e políticas. Falar em “feminismo” no singular é uma simplificação histórica. A pluralização feminismos não é concessão retórica, mas reconhecimento epistemológico da diversidade de experiências e posicionamentos sociais.

Judith Butler demonstrou que gênero não é essência biológica fixa, mas construção performativa reiterada por normas sociais. Já Monique Wittig tensionou a própria categoria “mulher”, afirmando que ela é produzida dentro de um regime heterossexual de poder. Essas formulações deslocam o debate do plano identitário para o plano estrutural: quem define quem é mulher? A biologia? O Estado? A experiência social? A violência sofrida?

Por outro lado, parte do feminismo radical contemporâneo sustenta que a categoria mulher deve ser definida a partir do sexo biológico, argumentando que a opressão patriarcal incide sobre corpos historicamente socializados como fêmeas. Esse embate não é superficial; ele toca o núcleo da definição política do sujeito do feminismo.

No entanto, quando a divergência teórica se transforma em guerra interna permanente, há um efeito político colateral: o deslocamento do foco. A estrutura patriarcal que produz feminicídios, estupros e desigualdades materiais permanece operando enquanto o movimento consome energia em disputas identitárias.

Angela Davis adverte que movimentos emancipatórios fracassam quando não conseguem articular diferenças sem reproduzir exclusões. Já Lélia Gonzalez ensinou que o feminismo que ignora raça e classe torna-se projeto limitado, incapaz de representar a maioria das mulheres. A lição que emerge dessas reflexões é clara: universalismos excludentes fragilizam a luta.

A pluralização em “feminismos” pode ser uma saída metodológica relevante, pois reconhece que mulheres não são um bloco monolítico. Contudo, pluralidade não significa relativismo absoluto. Há um ponto mínimo de convergência que sustenta o campo: o enfrentamento às estruturas que produzem desigualdade e violência de gênero.

A pergunta estratégica, portanto, não é “quem tem razão absoluta?”, mas “como construir coalizões políticas eficazes sem apagar diferenças reais?”. A teoria política contemporânea fala em alianças contingentes: acordos táticos em torno de objetivos comuns, ainda que persistam dissensos ontológicos.

Superar “ondas” não significa negar a história do movimento, mas compreender que cada fase respondeu a contextos específicos. Hoje, o desafio é lidar com um cenário de recrudescimento conservador, aumento da violência e instrumentalização política das pautas de gênero. A fragmentação, nesse contexto, interessa mais aos adversários do que às próprias mulheres.

Isso não implica silenciar conflitos legítimos. Implica elevá-los ao nível do debate qualificado, evitando que a divergência se converta em deslegitimação mútua. Movimentos sociais maduros conseguem tensionar conceitos sem destruir alianças estratégicas.

A luta interna não precisa cessar ela faz parte da elaboração teórica. O que precisa cessar é a incapacidade de distinguir disputa conceitual de sabotagem política. Enquanto não delimitarmos o inimigo estrutural patriarcado articulado ao racismo, ao capitalismo e ao autoritarismo continuaremos girando em torno de nossas próprias fissuras.

Se a revolução será feminista, ela não será uniforme. Mas precisará ser suficientemente coesa para enfrentar o que está fora. A questão não é eliminar diferenças, e sim impedir que elas nos paralisem diante daquilo que, concretamente, nos mata.

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