Não julgue que faço apologia dos desvios que tive ao longo da vida. Não só não faço, como também não serei eu a condená-los. Entenda que não tive escolha ou, ao menos, as propostas que me foram apresentadas não me interessavam. Afinal, quem se contenta com migalhas quando se pode ter toda a fornada?
Nunca fui de fazer dramas por conta de situação financeira, mesmo porque não me enquadro nas classes menos abastadas, que sofrem as agruras da precariedade de recursos. Também não nasci entre os que detêm recursos suficientes para ditar os rumos da sociedade. Esse equilíbrio talvez tenha sido o motor que me qualificou para ir em busca algo que, aos meus olhos, era por meu por direito.
Antes dos 25 anos, ajudava meu pai a gerenciar o comércio da família, uma padaria e uma loja de ferragens. Ele, antes de se aposentar, já havia iniciado essas atividades, pois temia morrer assim que parasse de trabalhar em certa repartição pública em Brasília. Mamãe, a princípio, não gostou muito da ideia, pois seu objetivo era retornar para sua Sete Lagoas-MG ou, então, ir para o litoral.
O trabalho, apesar de não ser estafante que nem os dos nossos funcionários, não me satisfazia especialmente por eu ambicionar coisas muito além da vida mais ou menos que eu levava. É até engraçado, pois os empregados me imaginavam rico. Hum! Nada mais sem sentido como a visão distorcida de quem está no piso da sociedade afirmar que alguém, dois ou três degraus acima, está no topo do mundo.
Aconteceu numa sexta-feira, final de mês, na panificadora. Depois de conferir o faturamento, pedi um refrigerante e um pedaço de bolo recheado para Carlos, um dos balconistas. Enquanto isso, percebi um sujeito, pouco mais velho do que eu, estacionar uma Ferrari em frente. Ele desceu e, para minha surpresa, entrou e, do nada, me perguntou se o bolo era gostoso.
— É, mas talvez não seja do agrado para alguém que tem um carrão desse.
O cara me fitou e, com sorriso nos lábios, disse que qualquer um, com um pouco de coragem, poderia ter dois ou três iguais ao dele.
— Bem, amigo, não me considero um covarde, mas não faço a menor ideia de como ter uma máquina dessa, muito menos duas ou três.
— Qual é o seu nome?
— Renato.
— Hum! Quem sabe não seja este o momento de você renascer?
Ele estendeu a mão e disse que se chamava Carlos. No entanto, de um tipo muito diferente do empregado do meu pai. Depois de comer a fatia de bolo e beber um café, ele se levantou e, antes de sair, me deu seu cartão.
— Se estiver disposto, me ligue.
É óbvio que estava disposto a tudo para pilotar uma Ferrari que nem aquela. Melhor, queria ter uma igualzinha ou, como Carlos havia mencionado, duas ou três. Nada mais daquela preocupação de contar migalhas na última sexta-feira do mês.
Durante aquele final de semana, minha mente vislumbrou várias possibilidades. Carlos estaria metido em que tipo de negócio? E, por mais que tentasse vislumbrar algo honesto, meus pensamentos eram empurrados para o mundo dos ilícitos. No mínimo, negócios que não pudessem ser chamados de ortodoxos.
Segunda-feira, logo após as 10h, telefonei para o Carlos. Ele não atendeu, o que me deixou desanimado. Talvez nem se lembrasse de mim. Que burrice a minha não ter passado meu número para ele. E lá estava eu lamentando minha falta de experiência, quando o meu celular tocou. Era o dono da Ferrari, que pareceu animado em saber que eu havia demonstrado interesse.
Por volta das 16h, Carlos passou na padaria e, ainda dentro de um Porsche conversível de cor preta, me acenou. Fui em sua direção e, logo em seguida, estávamos a caminho de não sei onde.
— Renato, tem certeza de que está a fim?
Mesmo não tendo a menor ideia do que aquilo significava, tentei ser o mais convicto possível.
— Sim!
Carlos se virou, sorriu, mas não consegui decifrar seu pensamento através daqueles olhos de um castanho tão profundo, que meu causaram misto de desconforto e atração. Entretanto, logo percebi que a minha história não caminhava para um final feliz, pelo menos não nos moldes a que nos é apresentada em filmes de Hollywood. E quem disse que isso me fez recuar?
Passamos a noite juntos. Não era minha preferência, mesmo não sendo novidade. Acabei por me embriagar por tanto luxo na mansão do Carlos, localizada no Lago Sul.
Na manhã seguinte, me vi sozinho na cama. Olhei para os lados, mas nem sinal do Carlos. Assim que me levantei, percebi um bilhete ao lado:
“Renato,
Sinta-se em casa. Volto mais tarde. Qualquer coisa, peça para Matilda.
Carlos”
Matilda? Quem era Matilda? Não demorou, descobri, pois a tal deu dois leves toques na porta e perguntou se podia entrar.
— Oi! Pode sim.
— Está vestido?
Se eu estava vestido? Precisava mesmo daquela pergunta?
— Sim.
Assim que a mulher entrou, imaginei que fosse a governanta ou algo do tipo. Mas eis que ela me olhou com aqueles olhos conhecidos, o que me deixou ainda mais constrangido por aquela situação.
— Bom dia! Sou a Matilda. Você deve ser o Renato.
Como é que é? Por acaso havia mais alguém nos outros quartos? Tentei sorrir, mas minha cara me denunciou.
— Você quer tomar seu café aqui no quarto, na sala ou na varanda em frente à piscina?
— A senhora é…
— Matilda. Então?
— Vou tomar um banho primeiro.
— Ok. Estarei lá embaixo.
Debaixo do chuveiro, meus pensamentos me deixaram ainda mais confuso. O cheiro do Carlos ainda estava em mim. Cheiro de gente de classe. O que eu estava fazendo ali? O que era aquilo tudo? Queria ligar para Gláucia, minha namorada, talvez como forma de afirmar a minha masculinidade. Por outro lado, desejei prolongar ao máximo estar ali.
Tomei café na varanda. Matilda me fez a gentileza de não me deixar só. Conversamos sobre vários assuntos, e ela se mostrou muito discreta. Não me fez perguntas, apenas me ouviu contar histórias, algumas que a fizeram sorrir.
— Os seus olhos… Você é…
— Matilda.
— Sim, eu sei.
— Você é um ótimo observador, Renato. E fico feliz por isso.
Nesse instante, a Ferrari vermelha passou pelo portão e estacionou próximo de onde estávamos. Carlos desceu e, assim que nos viu, veio em nossa direção. Ele beijou Matilda na testa e, em seguida, desarrumou meus cabelos com os dedos.
— Você fica mais bonito assim. Já basta aquele monte de engomadinhos que preciso lidar todos os dias.
Senti um pouco de vergonha, mas confesso que gostei daquela descontração.
— Que tal, Matilda? Gostou do meu namorado?
Namorado? Não que eu não gostasse daquilo, mas nunca havia sido namorado de um homem. E, antes que eu pudesse dizer algo, Matilda repousou a mão sobre a minha e disse:
— Adorei, meu filho!
Carlos e eu nos entregamos de modo quase honesto. Ele sempre se mostrou apaixonado, confessou que já havia me visto algumas vezes antes de tomar coragem e estacionar a Ferrari em frente à padaria. Tamanha sinceridade me deixou propenso a tomar como natural o nosso envolvimento, mesmo que o conflito ainda me faça sala.
Quando passávamos as noites juntos, quase sempre eu acordava sozinho. Em vez de sentir solidão, tratava de tomar aquela ducha e me arrumar para tomar café na companhia da Matilda. Que mulher incrível! Cheia de histórias e cuidados. Tornou-se minha confidente de assuntos que a maioria não está preparada nem disposta para escutar.
Nos dias seguintes, minha maior preocupação era manter a discrição, e creio que não me saiu tão mal. Mantive o relacionamento com Gláucia, que durou por mais quase dois anos, até que fomos nos afastando. Nesse tempo, a pedi em casamento, mas ela, talvez percebendo que algo havia mudado, declinou da ideia. Não descarto a possibilidade de minha namorada ter percebido outro perfume em mim.
Mamãe, após anos de lamúrias, finalmente convenceu meu pai a irem embora de Brasília. Não antes de eu prometer ao meu velho que tomaria conta dos negócios da família. Isso, aliás, é o que ainda me mantém com os pés no chão. O dois se mudaram para João Pessoa, cidade pela qual se apaixonaram. Talvez eu vá visitá-los no Natal.
Quanto ao Carlos e eu, estamos bem. Não me meto nos seus negócios, e ele não desaprova o meu trabalho. Diz que é importante ocupar a mente com algo. É um homem simples, apesar de rodeado de tanta riqueza.
Após idas e vindas, o nosso relacionamento se transformou em amálgama. Já não sei onde eu termino, onde ele começa. Eu me mudei para o Lago Sul há dois meses. Gosto da sua companhia, de estar ao seu lado e, especialmente, não consigo mentir, amo a vida luxuosa que ele me proporciona. Sem contar que a Matilda e eu adoramos tricotar trivialidades todas as manhãs na varanda, bem em frente à piscina.
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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