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Entre Nelson Rodrigues e Cadu Matos

Na crônica Os noivos, Nelson Rodrigues conta que certa vez recebeu um telefonema do Palhares, “o canalha, ‘o que não respeita nem as cunhadas’. (…)”. Ele admitiu: “Não posso ver mulher. Não posso. Digo a verdade: – não posso. Um dia, cruzei com a cunhada no corredor. Era cunhada. Dei-lhe um beijo. Um ato vil, está certo. (…) E, se duvidarem, subo numa mesa e digo: ‘Sou um canalha!’. Parou, um momento, arquejante da própria sinceridade”.

Meu canalha é outro. Não é do Rio, como o de Nelson Rodrigues; meu canalha é gaúcho. Da velha Porto dos Casais, hoje Porto Alegre. Urbanézimo, jamais anda pilchado; costuma vestir terno e gravata, que o clima ajuda, ou, por vezes, um traje esporte finíssimo. Mas tem o mesmo comportamento de seu confrade rodrigueano, não pode ver mulher. Com uma agravante, com mais de 75 anos, tem consciência de que, mesmo sabendo usar, logo, logo vai faltar, e se atira sobre fêmeas de qualquer idade com uma sofreguidão assustadora.

Imaginei o encontro, no astral literário, de Palhares, o canalha rodrigueano, e Moreira, o canalha cadumatesco.

– Bom dia, Moreira.

– Bom dia, Palhares.

– Soube que você tem transado adoidado aí em Porto Alegre. Legal, manda ver! Só livra a cara de mãe e irmã. E mesmo assim…

– Minha mãe já morreu, tchê. Sei que não dá pra notar, mas já não sou tão jovem [mentira dele, claro que dava]. E não tenho irmã.

– Então não livra a cara de ninguém – disse Palhares, com um risinho sacana. – Me fala de você, amizade.

– Bah, considero-me um homem sofisticado. Aprecio bons pratos, bons vinhos, belas mulheres. Viajei muito, sabe? Conheci mulheres de todos os países, dormi com muitas delas, centenas.

– Mas tem mais, né? Uma perversãozinha tem sua hora e sua vez…

– Capaaz! Claro que não é apenas sexo. Olha, tenho mais de 60 anos [eufemismo, tinha muuito mais], não há tempo a perder. Daí me acusarem de sofreguidão na caça às mulheres, injustiça!

Palhares aguardou o resto da história. Moreira colou no rosto uma expressão de vítima de preconceitos e mal-entendidos, mas em seguida deu uma risadinha cúmplice e confessou:

– Quer saber? O que me dá prazer mesmo é impor minha vontade às mulheres. Se a moça é virgem e não quer dar, tenho porque tenho de tirar-lhe os tampos; se ela está louquinha pra transar, não tem graça, nem como. Se é casada, não basta guampear o marido, há que fazê-la abandonar o corno. Só não admito relação aberta, gaúcho que é gaúcho não aceita isso [mentira, índio véio não aceita, mas a moçada tá poliamorosando adoidado, come a fruta e chupa até o caroço].

Deu uma guinada na conversa.

– Sabe, Palhares, li Nelson Rodrigues, conheço a tua história. Também tive um lance com uma cunhada. Mas não foi um beijo no pescoço, sem mais. Passei meses seduzindo-a, minando sua decisão de ser fiel a meu irmão. Ela acabou se apaixonando por mim. Aí transamos uma vez, e dei-lhe um pé na bunda! – e resumiu:

– Enfim, descrevo-me com um homem do mundo. Como observou Charles Bukowski, “foder a mente de uma mulher é um vício de conhecedores refinados, os outros se contentam com o corpo – e Moreira deu um risinho satisfeito.

Palhares explodiu.

– Porra, mermão, homem do mundo e conhecedor refinado é o cacete! Você é um canalha que nem eu, muito mais que eu! – e mandou uma porrada nos cornos do gaúcho.

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