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Entre o amor-próprio e a armadilha do espelho

A palavra narcisismo se popularizou a ponto de virar rótulo rápido para comportamentos difíceis: o chefe autoritário, o político vaidoso, o parceiro emocionalmente indisponível. Mas nem todo narcisismo é patológico. Em sua origem, o conceito está ligado ao amor-próprio — algo essencial para a construção da identidade e da autoestima. O problema começa quando o espelho deixa de refletir e passa a dominar.

Na psicologia, o narcisismo saudável é aquele que permite ao indivíduo reconhecer seu valor, estabelecer limites e buscar reconhecimento sem anular o outro. Já o narcisismo excessivo — especialmente o chamado Transtorno de Personalidade Narcisista — é marcado por grandiosidade, necessidade constante de admiração, dificuldade de empatia e uma percepção distorcida da própria importância. O outro deixa de ser sujeito e passa a ser plateia.

Vivemos em uma era que estimula o narcisismo. Redes sociais, métricas de curtidas, cultura da performance e da exposição constante reforçam a ideia de que existir é ser visto. Nesse ambiente, comportamentos narcisistas não apenas florescem, como são frequentemente recompensados. O problema é que essa lógica cria relações frágeis, baseadas mais na validação do que no afeto.

No trabalho, o narcisista tende a se apropriar de méritos coletivos e a reagir mal a críticas. Na política, confunde o cargo com o próprio ego. Nas relações afetivas, alterna sedução e desvalorização, criando vínculos instáveis e, muitas vezes, emocionalmente abusivos. Em todos os casos, há um traço comum: a incapacidade de lidar com frustração e limites.

Embora pareça paradoxal, o narcisismo extremo costuma esconder uma autoestima frágil. A grandiosidade funciona como uma armadura contra o medo de não ser suficiente. Por isso, críticas são vividas como ataques pessoais e discordâncias como ameaças. O narcisista não escuta — defende-se.

Esse mecanismo explica por que mudanças profundas são difíceis sem acompanhamento psicológico. Reconhecer limites, desenvolver empatia e aceitar vulnerabilidades exige justamente aquilo que o narcisismo evita: o confronto honesto consigo mesmo.

Falar sobre narcisismo é, em última instância, falar sobre equilíbrio. Amor-próprio não é superioridade. Autoconfiança não é desprezo pelo outro. Em uma sociedade cada vez mais centrada na imagem, talvez o maior antídoto contra o narcisismo excessivo seja reaprender a olhar — não apenas para si, mas para o mundo ao redor, com escuta, empatia e senso de coletividade.

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