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Entre roupas e espelhos, mulheres tomam a cena

Tentei escrever este texto umas mil vezes, mas falhei. E como não falhar diante de um assunto tão complexo: mulheres.

Acho que seria mais fácil escrever sobre todas as camadas que uma cebola tem do que tentar escrever sobre nós. Mas o fato é que, em tempos em que as canetas já não são mais as Bic, fica cada dia mais claro o quanto ainda somos aprisionadas em modelos estéticos e sociais dos quais dizemos que não nos cabem mais — falo de padrões, mas aqui poderiam muito bem ser roupas.

Nesse cenário, é fácil encontrar marcas de roupas que conseguem trazer corpos diferentes para fotografar suas belas coleções. Paolla Oliveira está aí, sendo não somente uma das mulheres mais desejadas do Brasil, como também arrasando em campanhas publicitárias. Fica fácil vermos marcas grandes, com orçamento gordo, se apropriarem do discurso de que são para todos os corpos, mas que, digamos de passagem, vestem até o 42 apenas.

A moda se faz da gente, da gente que está aqui atrás das redes, tentando incansavelmente encontrar uma roupa adequada ao nosso gosto para sair de casa. Então, meus amores, roupa real é coisa difícil, complexa. Blazer não fica bom em todo mundo.

Mas a fotografia, quando bem tirada, isso sim, fica bem.

Então deem um minuto de atenção a marcas pequenas e generosas, que fazem de suas campanhas palco para mulheres reais.

Às 6h30 da manhã de um sábado — acreditem, este bilhete é real — eu estava de pé, cabelo lavado e totalmente maquiada para uma sessão de fotos da qual, na maior cara de pau, me convidei para participar. Fazer o quê? Deus me deu o dom de falar antes de pensar.

Eu conhecia a fotógrafa, de anos atrás, e a dona da loja, que é minha amiga, mas nenhuma daquelas mulheres ali eu conhecia. Nenhuma delas era da minha idade e, sobre nenhuma, eu sabia absolutamente nada.

Fui a primeira, claro, porque alguém tinha de começar a ser a exibida, e isso eu faço com gosto. Todas nós, uma após a outra, não sabíamos grandes coisas sobre poses, sobre sapatos, luz, maquiagem perfeita, bocão e o posicionamento correto dos pés, mas todas sabíamos que estávamos ali por um único propósito: representar alguém.

Eu representava a mim mesma, olhando no espelho e me autoafirmando que os 5 kg a mais, os dias de tristeza profunda, a falta de dinheiro e um futuro totalmente incerto poderiam ser deixados para trás e que, talvez naquele momento, eu pudesse me olhar com mais afeto e empoderamento, como em tantos outros momentos empoderei alguém.

Olhei para todas aquelas mulheres, cada uma com sua beleza singela e ao mesmo tempo representativa, e pensei no quanto havia delas ali buscando, assim como eu, algo totalmente inimaginável e impalpável.

Imaginei que algumas delas estariam realizando sonhos de infância; outras, saindo da sua zona de conforto; outra, sendo modelo do seu próprio mundo; outras, talvez, superando a perda, a ausência, o pé na bunda, a falta de afeto ou qualquer outra coisa que fosse.

Todas mulheres de corpos diferentes, provavelmente sem as tais canetas da moda, cada uma vestindo roupas que gostaríamos de ter em nossos guarda-roupas e esperando o momento ideal para usá-las — sem lembrar que o momento ideal são todos os dias em que temos vontade.

Quem haveria de imaginar que uma loja escondida no segundo piso de uma galeria linda, que te serve café durante as tardes, sabe o nome das clientes e amigas e propõe rodas de conversa e oficinas, pudesse fazer tanto por nós? Por mim e por todas as mulheres que irão se sentir representadas e despertadas pela vontade de ser “apenas” modelo por um dia.

Acredito que esse seja o grande propósito da moda, afinal: vestir corpos reais com pessoas também reais.

Enquanto o mundo ainda nos faz engolir muitos corpos perfeitos, que possamos ter a grande coragem de abraçar nossas imperfeições e refletir de verdade sobre as pequenas marcas e pessoas que se dizem pequenas quanto ao reconhecimento nacional, mas são imensamente grandes e genuínas no emocional de tantas mulheres.

Vida longa às lojas que nos permitem sonhar com nossos corpos reais.

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Na foto, da esquerda para a direita: Flávia Assis, Maysa Fonseca, Rosana Oliveira, a autora e Bruna Tostes

Thalita Delgado (@tha_delgado): Jornalista, publicitária e empresária, que também se expressa como crocheteira e escritora. Apaixonada por música, livros e pequenas sensibilidades do cotidiano, lançou em 2024 seu primeiro livro, “A vida se faz rindo e chorando”, pela Editora Autoria.

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