Joel estava em casa, cantarolando “Bom dia, tristeza/Que tarde, tristeza/Você veio hoje me ver…”, versos iniciais da canção de Vinicius de Moraes, quando ela se materializou em sua frente.
Era uma figura de mulher de idade indeterminada, toda vestida de cinza. Nenhum adorno, nem um colarzinho, um par de brincos, uma presilha no cabelo, nada. Olhos inexpressivos, feições inescrutáveis, de alguém incapaz de sentir qualquer coisa. Olhou-o em silêncio e afinal falou num tom monocórdio:
– Melhor ir agora.
– Não! É cedo, vai que eu saio dessa fossa…
Sem responder, a aparição não mostrou a menor reação no rosto de pedra e se desmaterializou.
Ele ficou imóvel por uma meia hora. Depois deu de ombros. “Ela tem razão”, disse para si mesmo.
Foi à cozinha, abriu a garrafa de guaraná e a lata de formicida, comprada há meses, no início da depressão braba que tomou conta dele, misturou tudo e bebeu.
