Antes que fizesse algo substancial para mudar a trajetória de sua vida, Ernesto se olhou no espelho e, diante da própria fraqueza, tomou o único caminho que conhecia, que era ficar. Apaziguou a relação. Aquele lance de seguir em busca do desconhecido não era da sua natureza, como se ele já soubesse que o destino lhe reservara a sobrevivência, por mais simplória que pudesse parecer. E era.
O homem se lembrou das palavras ditas por sua finada avó materna, dona Chiquinha, cuja língua, vez ou outra, trilhava certa mordacidade. Era Natal, lá pelos idos de 1980. A parenta estava sentada num canto da sala com Lidiane, filha única de um casamento que se arrastou até que a picada de uma surucucu a fez viúva. Dizem que, ainda no velório, a mulher era só sorrisos. Bem, é sabido que há pessoas que riem de nervoso, se bem que, aqueles que a conheceram, essa possiblidade era, no mínimo, remota, para não dizer impossível.
— Lidiane, os homens da nossa família são covardes. E não digo isso da boca pra fora, pois não sou leviana.
— Mamãe, como é que a senhora diz uma coisa dessas? E o papai?
— Hum! Aquele tinha voz de trovão, cara de poucos amigos, virava pra cuspir, limpava a boca com o dorso da mão, arrotava grosso, mas não dava um passo sem me consultar. E o pior de tudo era quando eu dizia que estava tudo bem, que ele poderia ir em frente. Uma mula não empacaria com tamanho fervor. O Orlando era um frouxo, isso sim!
Ernesto repetiu a frase da dona Chiquinha em frente ao espelho, e ela soou mais verdadeira do que nunca. Na família, a coragem parecia mesmo reservada às mulheres. E foi escorado nessa muleta que ele decidiu não mexer uma palha para mudar de situação. Ficaria ali mesmo.
Nem tanto assim! Uma revoada de ímpeto se aproximou. O sujeito pegou a carteira e, já na calçada, foi em direção ao mercado da esquina. Rosto firme, parou diante do freezer. Lá estava o pote de morando de sempre. Ernesto sorriu com desdém, esticou o braço e, destemido que se sentia, pegou o de abacaxi.
Entrou no apartamento, colocou o pote de sorvete sobre a bancada da cozinha. Pegou uma pequena tigela e uma colher. Serviu-se. Puxou uma cadeira e se sentou. Observou aquela quantidade generosa de sorvete até que ela se derreteu por completo. Dona Chiquinha sabia mesmo das coisas.
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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