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Escrever como quem crava um traço que a multidão não apaga

A cidade é enorme e não pede licença. Ela passa por cima da gente com uma naturalidade quase administrativa, como quem carimba papéis e empurra filas, e, de tão cheia de pessoas, paradoxalmente nos torna invisíveis. Há dias em que sinto que caminho dentro de um organismo que funciona, indiferente ao meu nome, às minhas lembranças, ao fato de eu estar inteiro ou esfarelado por dentro. Tudo está em movimento, tudo tem horário, meta, fluxo, e o que não cabe nessas caixas vira ruído. O pior não é a pressa, é o apagamento discreto: você vai se adaptando para não atrapalhar, vai afinando suas arestas até caber no corredor estreito do mundo.

Eu noto isso nas pequenas cenas, que parecem bobas até o momento em que doem. A luz amarela do hall, o cheiro que vem de algum lugar e que ninguém comenta, o elevador que abre e fecha como uma pálpebra cansada, o rosto de alguém que passa com a mesma expressão de ontem e de anteontem, como se o próprio olhar tivesse sido terceirizado. A cidade nos ensina a repetir: as mesmas ruas, os mesmos cumprimentos automáticos, a mesma maneira de pedir desculpas por existir no caminho do outro. E, quando percebo, é como se eu também estivesse sendo repetido, como se a minha pessoa fosse um molde de plástico, útil e descartável, um “eu” de conveniência, ajustado para não chamar atenção.

Só que há um ponto em que, por instinto de sobrevivência, eu começo a fazer pequenas desobediências. Não as grandes, que viram história e manchete, mas as mínimas, quase domésticas, aquelas que ninguém aplaude e, ainda assim, salvam. Eu preservo minha individualidade no detalhe: num caminho que escolho diferente sem motivo prático, numa pausa que não obedece ao semáforo, numa palavra que eu não digo como se espera que eu diga. Parece pouco, mas é nessas frestas que eu volto a me reconhecer, como quem acha no bolso um objeto antigo e, ao tocá-lo, lembra que já foi alguém antes da agenda, antes do ruído, antes das exigências.

Escrever, então, é a minha forma mais teimosa de existir. Um poema ou um conto não é apenas um texto; é um jeito de respirar que não se repete, uma assinatura invisível na ordem do mundo. A escolha de um adjetivo, a maneira como uma frase se alonga e depois se interrompe, a imagem que eu decido carregar — tudo isso me pertence com uma intimidade que a cidade não consegue confiscar. E eu gosto de pensar que, mesmo quando escrevo no intervalo de um dia duro, entre uma obrigação e outra, eu estou fabricando um traço que não se dissolve na multidão: um pedaço de mim que não aceita ser reduzido a função.

Há também a voz. Não a voz física apenas, mas o tom exato com que eu digo uma coisa boa a um amigo necessitado, aquele segundo de hesitação antes de escolher uma palavra menos áspera, a inflexão de cuidado que não aparece em nenhuma ata. A cidade pode multiplicar rostos, mas não consegue duplicar certos gestos: o modo como eu seguro o silêncio para o outro falar, a mão que toca o ombro na medida certa, o riso discreto que devolve coragem a alguém sem alarde. E, sim, até o meu ritual ridiculamente particular — fumar um charuto perto de uma janela, olhar a rua como quem olha um rio, ajeitar a cinza com um movimento específico, inimitável, como se eu estivesse desenhando, no ar, um sinal que só eu conheço — isso também é uma forma de permanência.

No fim, o que me consola é imaginar que a lembrança humana não se prende ao grandioso, mas ao singular. Quando eu não estiver mais sobre a Terra, talvez ninguém recorde meus compromissos, minhas pressas, minhas pequenas submissões ao relógio da cidade. Mas alguém pode se lembrar de um parágrafo que eu escrevi num dia de chuva, do timbre com que eu disse “vai passar” sem mentir, do meu gesto na janela, da maneira como eu transformava uma sensação em frase, como se fosse possível salvar um instante do desaparecimento. A cidade tenta nos apagar porque precisa de gente funcionando; eu tento me conservar porque preciso de alma. E, se eu tiver alguma esperança de ficar, que seja assim: nas pequenas coisas que só eu faria daquele jeito.

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Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) é editor-executivo de Notibras, poeta, advogado e professor. Autor dos livros “A Verdade nos Seres” e “Território do Sonho”.

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