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ESCULPINDO A TRAGÉDIA COM SANGUE E ALMA

“O homem está infeliz porque não sabe que é feliz.”
(*Fiódor Dostoievski, escritor russo)

Trágico em vida e gênio universal na literatura. Nasceu em 11 de novembro de 1821, em Moscou. Três anos após o sucesso de seu primeiro livro — Gente pobre —, publicado em 1846, foi preso, por questões políticas, e condenado à morte.

A sentença, no entanto, foi revogada, e o autor, então, foi condenado a realizar trabalhos forçados, durante quatro anos, em uma prisão na Sibéria. A vida foi esculpindo os traços dos textos e da narrativa do bravo guerreiro.

TEMÁTICAS E ESTILO ÚNICO

As obras de Dostoiévski estão vinculadas ao realismo russo e apresentam crítica sociopolítica, fluxo de consciência e personagens marginalizados. Assim, o autor traz à tona elementos profundos da alma humana e, dessa forma, acabou influenciando filósofos como Nietzsche e Sartre.

Falar de Dostoiéviski é mergulhar na modernidade literária, como se possível fosse reinventar as tragédias gregas e a potência universal e eterna da pena do bardo, Shakespeare. E é possível. O russo genial viveu de forma labiríntica a sua vida pessoal e deixou um legado de textos e livros incomparável na história da literatura universal.

Em 1862, publicou seu livro Recordações da casa dos mortos e voltou a ser admirado como escritor.

Em 1872, na Rússia, o romancista se tornou redator-chefe do jornal O Cidadão. a. Porém, as crises epilépticas eram recorrentes, e a saúde do escritor ficou mais frágil com os anos. Ele morreu em 9 de fevereiro de 1881, em São Petersburgo.

GARIMPANDO DOSTOIÉVSKI EM NELSON RODRIGUES

No Brasil, a influência do “mago trágico russo” nas letras e no teatro é marcante. Ninguém escapa às tramas e perfis psicológicos das personagens dele. E o estilo trágico de narrar, então? Insuperável.

Encontrei numa rápida pesquisa na internet, um pequeno texto do nosso maior autor teatral e dramaturgo, o trágico e genial jornalista Nelson Rodrigues.

Basta para materializarmos a importância para sempre de Fiodor Dostoievski:

“(…) Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me:

“O que é que você leu?”.

Respondi:

“Dostoiévski”.

Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu:

“Que mais?”.

E eu:

“Dostoiévski”.

Teimou:

“Só?”.

Repeti:

“Dostoiévski”.

O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoiévski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura. “Ler o mago russo um milhão de vezes ainda será o mínimo.”
(*— Nelson Rodrigues, no livro “O Óbvio Ululante : Uma banana como merenda” [15/12/1967]. Ed. Companhia das Letras; 1.ª edição 1995).

…………………….

Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador que sonha quase todas as noites com narrativas e personagens de Dostoievski, Shakespeare e Nelson Rodrigues.; e esconde embaixo da cama a camisa de força, parceira cúmplice e sincera. Vive na vila da Guarda do Embaú, litoral de SC.

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