A estreia da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial do carnaval do Rio terminou como certas promessas de campanha: cheia de entusiasmo, discursos grandiosos e um resultado final um pouco constrangedor. A escola ficou em último lugar na apuração desta quarta-feira (18) e acabou rebaixada logo após sua primeira passagem pela elite do samba. Ao longo da leitura das notas, conquistou apenas duas notas 10 — número modesto para quem pretendia desfilar embalado pela própria história do poder.
Com o enredo “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a agremiação levou à Sapucaí uma biografia em ritmo de bateria: infância nordestina, migração para São Paulo, torno mecânico, sindicalismo e, por fim, a rampa do Planalto — esta, recriada na comissão de frente como se a avenida fosse uma extensão cerimonial de Brasília.
No cortejo, não faltaram personagens conhecidos da República. Entre atores e bailarinos, surgiram representações de ministros, ex-presidentes e capítulos recentes da política nacional, numa espécie de resumo alegórico do noticiário dos últimos anos. O carro abre-alas evocou o agreste pernambucano, misturando exuberância estética com a escassez simbólica que costuma acompanhar narrativas de origem. Mais adiante, vieram críticas a governos passados, menções à pandemia e até referências à prisão de um ex-mandatário — porque, no carnaval contemporâneo, a linha entre sátira e arquivo histórico anda cada vez mais curta.
Se na narrativa política havia drama, na parte técnica houve algo ainda mais concreto: alegorias presas na dispersão, correria no fim do desfile e uma avenida que precisou conviver com o atraso. A Imperatriz, que vinha atrás, reclamou do prejuízo — prova de que, na Sapucaí, como na política, o problema de um costuma respingar no seguinte.
Fora da pista, o enredo acumulou ações judiciais, representações em órgãos de controle e discussões sobre propaganda eleitoral antecipada. Tentou-se barrar desfile, presença presidencial e até manifestações consideradas ofensivas a adversários. O tribunal eleitoral, porém, preferiu não entrar no ritmo do tamborim da censura prévia, deixando para depois qualquer eventual punição — solução clássica brasileira: primeiro deixa acontecer, depois vê o que faz.
Partidos orientaram cautela, o governo negou participação na escolha do tema, a oposição prometeu novas medidas, e alas com críticas a “neoconservadores” renderam indignação adicional. Ou seja, tudo exatamente como se espera quando o samba resolve atravessar a Praça dos Três Poderes.
Após o desfile, vieram elogios nas redes sociais, notas de perseguição, debates sobre recursos públicos e a certeza de que, pelo menos no quesito repercussão, a escola não passou despercebida. Faltou combinar com os jurados.
No fim das contas, a esperança até surgiu do Mulungu, subiu a rampa, ocupou a avenida — mas terminou descendo discretamente para o Grupo de Acesso. No carnaval, como na vida pública, aplauso não substitui pontuação. E biografia, por mais épica que seja, ainda precisa fechar bem na dispersão.
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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras
