Uma amiga postou no Facebook um vídeo no qual uma menininha, de vestidinho rendado, mergulha impávida em uma poça de água e lama. Eu respondi no ato: “Uma vez caí no lago na praça central de Friburgo, mas não estava com vestidinho e sim com calça curta. Primeiro vexame de uma longa série na minha vida.”
Depois de mandar o comentário, reli o que havia escrito e constatei três coisas. A primeira é que minha resposta não tinha a menor graça, na verdade era bem triste. Minha amiga percebeu isso, e contra-atacou com uma nova brincadeira para dissipar a tensão. Mas não adiantou muito.
A segunda coisa é que o episódio continuava bem vivo em minha memória, que esqueceu tanta coisa da infância. A terceira é que não havia falado sobre isso com ninguém, nunca, em tempo algum – até que o jogo de postagens e curtições do Facebook me arrancou essa confissão.
Lembro que estava com uma calça curta branca, das que os meninos usavam nos anos 50, e por algum motivo resolvi andar pela beirada do lago. É um laguinho, mas na época me parecia bem grande. Nosso planeta tem uma extensão superior a 510 milhões de km2, e o lago de Friburgo, menos de 200 m2. Pois bem, ignorei os 510 milhões de km2 e me chafurdei nos 200 m2 de água esverdeada.
Não lembro das risadas e zombarias que muito provavelmente acompanharam minha saída do lago. Não lembro da bronca que provavelmente levei de minha mãe e/ou avó, por estragar a roupa e o passeio. Lembro do mergulho de bunda na água, dos beliscões que levei de minha mãe até entrar em casa (beliscão era especialidade dela) e de ter sentido um vislumbre do que postei tantas décadas depois: aquilo não era um vexame a ser zoado de fora, mas algo que eu, e apenas eu, podia qualificar como uma derrota – e uma das que balizaram minha vida.
Dedico este texto àquele menininho de 5-6 anos que saiu, aturdido e assustado, das águas de um lago friburguense. Ele continua presente em meu psiquismo, felizmente na companhia de versões dele/minhas mais equilibradas e mais felizes.
De certo modo, a imersão no lago cristalizou sentimentos que provavelmente já existiam há tempos. A partir daquele momento, por muitos anos colecionei amorosamente minhas derrotas, lustrei-as com cuidado e as depositei em estantes psíquicas, onde podia examiná-las sempre que quisesse.
Minha família, minha mãe em especial, foi uma grande incentivadora de minha coleção de derrotas. Aos 10 anos prestei exame de admissão ao ginásio e tirei 6,5 em português. Minha mãe comentou que era um fracasso imperdoável. Só que passei em 2º lugar no exame, entre milhares de crianças, e não lembro de receber nenhum elogio.
Outro exemplo, de quando tinha 12 anos. Meus pais viajaram para a Europa e escrevi para eles uma cartinha divertida, cheia de ironias. Eles responderam que haviam adorado. Então escrevi outra, sem ter muito assunto (esgotado com a primeira carta), forçando as piadas como um stand up comic destrambelhado perante uma audiência alcoolizada e hostil, e eles só faltaram me vaiar. Mais uma derrotinha a ser saboreada com vagar.
Não entendi bem o mecanismo até, muitos anos depois, ler um livro de Carlos Castañeda. Não lembro qual livro, não sei se ainda o tenho e, de qualquer modo, não pretendo relê-lo, o essencial é o que guardei do texto. Castañeda sai vitorioso em alguma coisa, vê a expressão desolada do garoto que perdeu pra ele e, comovido, decide abrir mão de todas as suas vitórias futuras, oferecidas como expiação ao menino. Ou seja, torna-se um colecionador de derrotas de responsa. Comigo a coisa foi similar, e só agora, com este texto, a estou assimilando plenamente.
Terminei a primeira versão deste relato com o parágrafo:
“Então, por favor, curtam meus textos, os comentem, comprem meus livros, o escambau. São pequenas vitórias que ajudam a equilibrar a balança. Obrigado.”
Mas não. Coisas minhas – de cada vivente – não mudam assim tão fácil. O jeito é soltar os cachorros, chutar o pau da barraca, equilibrar os pratos da balança por mim mesmo. Bola pra frente. E se não der, como ensinou Bandeira, ir embora pra Pasárgada. Ou cantar um tango argentino.
